Artigo 16:19 - 10 de abril de 2019

Tá todo mundo louco!? O mundo está volátil, incerto, complexo e ambíguo? Tudo muda, tudo cambia, aceleradamente!

“Existe efetivamente um descompasso entre o ritmo da mudança e nossa capacidade de desenvolver sistemas de aprendizagem, sistemas de treinamento, sistemas de administração, redes de segurança social e regulamentação governamental que dariam aos cidadãos a capacidade de extrair o máximo dessas acelerações e amortecer seus impactos mais severos.” Thomas L. Friedman – Obrigado pelo atraso

O nosso objetivo aqui é dialogarmos sobre tendências, mas precisamos de um mapa de navegação. A ideia aqui não ter uma linha e chegar na conclusão, mas entender o porquê. O “porquê” é o que vai dar significado e nos inspirar a fazer algo.  Já que falarei de tendências, citarei brevemente nesse início, um livro que li e gostei muito, que foi  A Quarta Revolução Industrial de Klaus Schwab. Na página 107, o autor aponta que, para enfrentar os desafios desse momento de transformação digital, temos que aplicar, ao mesmo tempo, quatro tipos de inteligência:  a contextual (a mente), a emocional (o coração), a inspirada (a alma) e a física (o corpo). Ele entende que a combinação dessas quatro inteligências é vital para lidarmos com esse momento de transição que se caracteriza como por ser Volátil, Incerto, Complexo e Ambíguo. Essa é uma tendência!

Começo chato? Sim, eu reconheço. Na era da velocidade, sem tempo e eu fico aqui filosofando..., mas temos que entender o contexto (a primeira das inteligências citadas por Klaus Schwab, líder do Fórum Econômico Mundial). Eu prometo que os próximos artigos serão mais práticos. Para ser honesto com você, os meus amigos mais polidos costumam de chamar de complexo e os mais íntimos me chamam de chato mesmo! Um chefe que falava que eu era estranho! Até os astrólogos já me chamaram de complexo porque eu combino a viagem com muita execução e transpiração, mas isso é para uma conversa acompanhada de um bom vinho....

Falar das tendências parece simples, mas há um caminho a ser percorrido. Precisamos de uma compreensão do passado e do presente... Onde estamos e para onde vamos? Eu não tenho a pretensão de abordar nesse espaço as perspectivas filosóficas, metodológicas da produção do conhecimento, que aprendi em dois anos de mestrado acadêmico em Mercadologia pela FGV – Fundação Getúlio Vargas.. Esse ano faz 30 anos que estudo tendências. Em maio de 1990, lá estava eu, em Paris, representando o Brasil/ABRAS – Associação Brasileira dos Supermercados como membro do Jury do Salão Internacional da Alimentação, com mais de 30 jornalistas do mundo todo, analisando os produtos mais inovadores do mundo.

Nesse mundo de viagem e  da imagem e do instantâneo, confesso que  me incomoda o descuidado com o qual usamos as palavras, que perdem seu significado e consequentemente compromete o diálogo e a compreensão. Neste mundo visual de alta velocidade e sem tempo,  no qual o Instagram se destaca, e a pessoas são agrupadas por algoritmos  (parte da Inteligência artificial) e que identificam padrões e criam grupos, que na vida real se  polarizam como cada um fosse dono da verdade e tornam as relações difíceis. Você acha que não tem nada a ver com o teu negócio? Tem sim! Nos Estados Unidos, logo após a eleição de Donald Trump, uma eleitora resolveu comprar um bolo no supermercado para comemorar. A funcionária da loja se recusou a fazer o bolo. Você consegue imaginar a polarização e a crise que a diretoria do supermercado teve que lidar? A funcionária perdeu o emprego. Esse exemplo torna claro porque a Inteligência emocional ficará cada vez mais importante? A Tendência é uma intensificação da polarização porque cada pessoa ou grupo de afinidade tende a ficar ficará cada vez mais preso em suas “certezas”, convivendo pouco com o contrário e, quando contrariado, explode, porque a insegurança e o medo são enormes.

Há pouco espaço para o diálogo e  para entender diferentes perspectivas, ver o todo porque não temos tempo e temos pressa. Entende-se aqui também o porquê da tendência de se ter times multidisciplinares? Atuar com time multidisciplinares é superarmos esse isolamento e termos uma perspectiva holística ou do ecossistema. Nós não precisamos concordar com outro, mas analisar um mesmo tema de diferentes perspectivas com respeito, e diálogo e de forma autêntica, compartilhando nossos pressupostos, o que pode  proporcionar trazer mais clareza para  entender o do que está acontecendo, compreensão dos vieses de confirmação e “certezas do passado que podem ser inclusive crenças limitantes.  Um diálogo para entender os pressupostos, sem julgamentos, e,  poderá nos ajudar a compreender o impacto de uma comunicação mal  estabelecida seus impactos em nossas vidas,  no dia-a-dia papel dos líderes, e colaboradores e comarmadilhas realizadas com os vieses de confirmaçção e certezas do passado.  Relembrando Klaus Schwab, mais uma vez,  a segunda inteligência a emocional, vai ficar mais relevante ainda... Em muitas pesquisas de clima organizacional, comunicação aparece no topo da lista como um problema. Tudo isso mina a confiança, autonomia, a agilidade do processo de tomada de decisão e consequentemente resultados. Polarização, experiência de compra, empatia.... A emoção predominará. É uma tendência!

 

Um mundo em transição - Porque é importante entender as tendências

As mudanças fazem parte da sociedade, Heráclito já disse isso em...  O que muda, de tempos, em tempos, é a velocidade da mudança.  No geral, nós não lidamos bem com as mudanças. As tendências começam como ruídos, tornam sinais, depois tem os primeiros a adotar a novidade, mais pessoas adotam... Até virar o dia-a-dia, algo “natural”. Exemplo prático? Os veganos. Os veganos tem ganhado importância. O vegano porque não se alimentam de produto de comem nenhum  cuja origem é animal, como queijo, ovos... Se um bolo usar um desses ingredientes, não é um bolo vegano. No começo, esse grupo de seres humanos, com valores e princípios diferenciados, desafiaram o status quo, foi incompreendido e ridicularizados. Recentemente, até o Mc Donalds lançou seu hamburguer vegano. Há lojas especializadas em produtos veganos. Aliás, o vegano é um cliente que tem um tíquete médio maior, a margem é boa e esse consumidor/shopper talvez não seja teu cliente. Assim nasce uma tendência. Começa com um ruído, no qual a maioria não dá crédito, torna-se um sinal e vai conquistando espaço. Se a sua organização não incorporar esse tipo de produto ao sortimento, perderá clientes, não atrairá os novos e constatará que a sua loja ficará irrelevante para os clientes. As vendas cairão, o tíquete médio também. Você fará promoções e nada.  Tudo isso para exemplificar o impacto de uma tendência. Mas, uma nova tendência pode surgir de forma disruptiva e apresentar crescimento exponencial (o que nos surpreende e atordoa). Airbnb, Netflix, Uber são os exemplos “clássicos”. Essas transformações são impulsionadas pela tecnologia, mas na realidade são necessidades e desejos humanos latentes dos seres humanos que são atendidos. Garin Max  traz uma visão geral das dezesseis tendências e seus profundos impactos em nossas vidas, as mudanças ocorrem como verdadeiro abalos sísmicos! Envelhecimento acelerado da população, convívio de várias gerações, diversidade, capital intelectual, ética, segurança do planeta, polarização, interdependência, significado pessoal, pobreza e cuidado.  O mundo ocidental não é mais jovem como imaginamos, queremos ter uma aparência eternamente jovem, conhecimento é o novo motor da sociedade, convergência e miniaturização onde menos está se tornando mais, o futuro já chegou, faça isso para mim, dá um tempo! Estamos juntos nisso,  a pobreza do mundo nos torna todos pobres 

(https://www.amazon.com.br/dp/1931762481/?coliid=I2AL5S7FHFB5IJ&colid=28BBWJLPPDLT5&psc=0&ref_=lv_ov_lig_dp_it)

Um mundo Vulnerável, Incerto, Complexo e Ambíguo e suas consequências

https://www.ceeol.com/search/article-detail?id=472933

São muitas mudanças e os estrategistas definiram o momento que vivemos em mundo volátil, incerto complexo e ambíguo. Eu sei, já escrevi isso, mas é muita informação e é importante você fixar. Você vai ouvir muito sobre mundo VICA (VUCA, em inglês).

Vamos aprofundar nesses conceitos:

Volátil: um mundo volátil se caracteriza por mudanças repentinas, por vezes, extremas, as quais podem ocorrer no campo da política, economia, política social, ambiental, tecnologia e impactam o conhecimento por meio da explosão de informações que não conseguimos humanamente acompanhar e assimilar... As transformações são disruptivas, podem vir de qualquer direção e muitas vezes conflitantes e sempre desafiam o status quo, a “verdade” predominante.  

Incerto:  Falta-nos conhecimento. Nosso modelo mental, padrões que criamos ao longo dos anos para entender um mundo que se transformava de forma mais lenta, não contempla todos os elementos para entendermos os cursos dos eventos com uma certa segurança. O que nos trouxe até aqui, não necessariamente nos levará para o futuro. A experiência do passado, combinado com intuição pode ser parte da resposta, mas precisamos conciliar com ferramentas e métodos inovadores e ágeis. As melhores práticas do passado, copiar a concorrência em busca do que faz e como se faz, não necessariamente proporcionam trazem as possíveis respostas que precisamos. Não temos como olhar o presente “com as lentes do passado” porque as informações apontam para várias direções e as mudanças são mais frequentes, aceleradas. e Há situações que são simplesmente imprevisíveis. Confundimos os conceitos de causa e efeito, as relações entre as variáveis informações e somos pressionados para tomar decisões rapidamente. 

Complexo: o mundo está mais fragmentando (pense nas opções de mídias sociais e também locais de compras). Temos mais fontes de notícias, mas opções de onde comprar, a mobilidade, propiciada pelo celular, e tudo a um clique, o que tornado internet  está tornando as fronteiras mais tênues (compramos de qualquer parte do mundo e temos o potencial de interagir com todas as pessoas do mundo). A tecnologia, em seu estado da arte, hoje é representada pela potencial da computação quântica, mas no geral, não entendemos corretamente a Inteligência artificial e seus dois campos mais abordados, aprendizado de máquina e aprendizagem profunda. Está tudo junto e misturado, inclusive com as notícias falsas (as fake News em Inglês). Um mundo difuso no qual entender as causas não é algo tão simples. Tudo está interconectado em um ecossistema, muito mais amplo do que possamos imaginar. A buzzword, ou a palavra da “moda” do momento é um mundo plural. Mais uma vez, reforçando o conceito de tendência, é aqui que ela começa, no buzzword, que pode ser um ruído ou um sinal. Saiba sobre esses sinais em em https://www.youtube.com/channel/UCf4FYTsGFFcdc68AUPIU3RA. Está também no Netflix

Ambíguo:  o mundo se torna ambíguo na medida em que o ambiente é o resultado da volatilidade, incerteza e complexidade. Nós não nos sentimos hábeis para proporcionar soluções “SIM/NÃO” diante desse mundo confuso que depende de inúmeros fatores.   Compreender as regras básicas do jogo. Afinal, o que é básico?

Nesse contexto, buscamos por clareza, transparência, inclusive para humildemente admitirmos a nossa  impossibilidade de acompanhar tudo e de diferentes perspectivas e aceitarmos que precisamos aprender a desaprender para aprender novamente para poder tentar compreender e fazer diferente. É nesse contexto que a diversidade, a inclusão e igualdade de oportunidades em mundo plural, ganham espaço para termos múltiplas perspectivas, com diálogo e respeito, para construirmos confiança e lidarmos com esse mundo VICA. Agilidade, resiliência, colaboração e cocriação são partes importantes dessas transformações. Equipes multidisciplinares são essenciais.

Estamos aparentemente mais informados, mais conscientes, mas também mais cínicos.

Fred Crawford e Ryan Mathews, no livro, o Mito da excelência resumem o nosso momento da seguinte forma:

 

 

SITUAÇÃO SOCIAL

CONDIÇÃO HUMANA

NECESSIDADE HUMANA

Desintegração social

Instituições tradicionais não refletem de maneira adequada os valores humanos fundamentais

Fortaleça, reforce e ratifique os valores pessoais

Crescente incapacidade de acompanharmos o ritmo da vida

Aumento do estresse, culpa e ansiedade

Ajude-me a sobreviver psicológica e emocionalmente

Proliferação das tecnologias de informação e comunicação

Consumidores informados e conscientes, porém cínicos e confusos

Esclareça minhas opções, permita que eu me sinta satisfeito com minhas escolhas

 

No programa Café Filosófico CPFL (https://www.youtube.com/watch?v=JAh8PqrnEeM), de 24 de setembro de 2017, a psicóloga Regina Herzog sintetiza o momento no qual o sofrimento está ligado com a imagem corporal, performance, intensidade do viver e vazio existencial e incitação.

Não por acaso, vivemos inseguros, ansiosos e em um mundo polarizado, onde cada um “se fecha” nas suas certezas, enquanto um porto seguro. Nesse contexto, queremos fugir para um tempo mais simples, onde aparentemente tínhamos mais certeza. A nostalgia, a volta ao passado, é para nós um lugar seguro. Como resumiu Alvin Toffler no livro Choque do Futuro, "a doença da mudança surge da crescente defasagem entre o ritmo de mudança ambiental e o ritmo limitado da resposta humana”.  

Nós não sabemos lidar com mudança. Nunca soubemos. O exemplo prático é o crescente número de pessoas com depressão ou com crise de ansiedade. Com medo do futuro, as pessoas optam - mesmo que inconsciente-, pelo passado ou ficam extremamente ansiosas e desejam antecipar o futuro. Queremos ter controle! O excesso de passado ou de futuro adoece. Precisamos ter maior dose de presente. É onde as coisas acontecem! Simples assim, não é mesmo mestre Adilson Rodrigues?  Diante de tantas mudanças, há pessoas que ficam paralisadas pelo medo intenso e outras que são impulsivas e agem sem pensar.  Ao longo da história, a tecnologia (lembrando que tecnologia é o estudo da técnica) é o gatilho das transformações. Veja essa notícia que foi publicada no Atlantic Journal em 16/06 de 1833 e foi compartilhada em um evento da HSM:

“Coisas demais acontecem, crimes em excesso, violência e excitação... É um esforço incessante para manter o ritmo... A ciência despeja sobre nós com tamanha velocidade que nos desconcertamos sob o seu peso em desesperançada perplexidade... Tudo se dá sob alta pressão. A natureza humana não pode suportar por muito mais tempo”.

Como você constatou, a frase acima foi escrita em 1833, momento de intensas mudanças. O mundo melhorou muito. Aprendemos a lidar com as transformações e incorporamos novos comportamentos para interagir, consumir e comprar. De acordo com Mattew Shay, CEO da National Retail Federation (NRF), “o momento atual é uma época para impulsionar a inovação e a experiência. Não estamos falando sobre ganhadores e perdedores é sobre transformação. Energia e visão é o que as organizações precisam. Reimaginar o futuro e promover as transformações internas”.  Fonte: https://www.retaildive.com/news/the-transformation-of-the-nrf-and-how-matthew-shay-envisions-the-future/507088/ Veja que mensagem inspiradora para lidar com o mundo VICA

Os líderes estão focados em criar as condições para e para entender esse futuro que já chegou e procuram inspirar as pessoas. Leslie Sarasin, presidente e CEO do Food Marketing Institute (FMI), a associação que representa o varejo alimentar, em um evento sobre marcas próprias que inspiram, apontou as seguintes tendências para o varejo alimentar:

- As lojas são um microcosmo do mundo.

- Os varejistas precisam ser aliados confiáveis dos clientes;

- É muito mais que embalagem, é oferecer experiência e engajar.

- A definição do valor está mudando: sua marca própria está alinhada com o sistema de valores de seu cliente?

Fonte: https://www.fmi.org/blog/view/fmi-blog/2014/06/23/private-brands-that-inspire

 

Embora o foco da apresentação da CEO do FMI fosse sobre marca própria, vale para o seu negócio e está em linha com a visão de Mattew.

Na Inteligência360 (www.in360.com.br) nos desafiamos e também os clientes, a analisar as informações de uma perspectiva humana, holística e integrada para superarmos as barreiras que existem entre o planejamento e a execução, entre os silos (cada um no seu departamento defendendo seus interesses, utilizando métricas próprias). A visão sistêmica é fundamental porque as soluções passam pela compreensão do ecossistema e a colaboração e cocriação são etapas fundamentais. Considerar todas as partes interessadas é fundamental. Nós não somos ingênuos, mas estudo apontam que não há outro caminho para entender e proporcionar respostas para as necessidades humanas.

Espero que a nossa jornada até aqui tenha sido interessante para você e tenha proporcionado algum insight sobre o momento, tendências e seus impactos em nossas vidas. Os desafios da transformação são humanos e não tecnológicos.  Eu sou um fã dos encontros. Tive a grata felicidade de conhecer Vanessa Sandrini, executiva do varejo, que hoje considero uma amiga e temos uma sintonia muito forte. Em uma palestra ela sintetizou o que é ser disruptivo: “ser disruptivo é priorizar o ser humano e não a tecnologia. Tecnologia é requisito. Ser humano diferencial competitivo.”

 

Vamos interagir!

Diga o que gostou,  compartilhe comigo e conosco os teus exemplos. Citei ao longo desse artigo vários livros e o propósito é esse. Compartilhar conhecimento. Conhecimento compartilhado se expande!

Olegário Araújo

Cofundador da Inteligência360 e pesquisador do FGVcev – Centro de Excelência em Varejo da FGV EAESP
Para me conhecer um pouco mais: https://www.linkedin.com/in/olegarioaraujo/
Meu e-mail: olegario.araujo@in360.com.br