Artigo 13:55 - 30 de agosto de 2019

 

Alison Angus e Gina Westbrook da Euromonitor internacional lideraram o estudo sobre as 10 Principais Tendências Globais de Consumo 2019.  O estudo é abrangente e merece ser lido na íntegra. Para aqueles que não tem tempo, segue aqui um resumo do estudo.

Procurei preservar a essência do documento e acrescentei algumas considerações sobre implicações para o seu negócio.

1) Agnósticos quanto a idade

As pessoas vivem muito mais tempo e querem continuar ativas, contribuir com a sociedade e manter uma atitude antienvelhecimento em relação a vida. Aproveitar a vida e crenças espirituais se tornam prioridades entre as gerações mais velhas. De acordo com o estudo, quase metade das pessoas com mais de 54 anos entrevistadas entendem que podem fazer uma diferença positiva no mundo através de suas escolhas e ações. As pessoas não querem envelhecer passivamente.

Formas de pensar e compras agnósticas quanto a idade entre consumidores mais velhos é uma tendência dinâmica e em evolução, que com certeza repercutirá cada vez mais no futuro à medida que as sociedades envelhecem e as pessoas vivem por mais tempo. O segredo para ganhar e manter a lealdade e a confiança desse grupo demográfico que está envelhecendo é desenvolver produtos e serviços que sejam acessíveis universalmente, mesmo quando desenvolvidos com pessoas mais velhas em mente. Os baby boomers têm muito mais em comum com os valores e prioridades dos millennials e das gerações mais novas do que muita gente percebe e é essa mentalidade inclusiva que precisa ser compreendida e melhor atendida no futuro.

Implicações: O Brasil está envelhecendo em alta velocidade. Essa mudança demográfica traz profundas implicações para a comunicação da empresa varejista e em especial da loja. Além disto, o sortimento precisa ser revisto para atender os hábitos de consumo desse grupo. Entretanto, é fundamental ter consciência de que não há um grupo monolítico e a tendência a personalização se aplica aqui também! Outro aspecto importante é que começa a surgir um novo grupo de shoppers, os cuidadores, que vão as compras para pessoas com desafios de mobilidade.

2) De volta ao básico pelo status

A vontade do consumidor de voltar ao básico pelo status será ampliada ainda mais em 2019 e nos anos seguintes. A globalização oferece infinitas oportunidades para uma proporção cada vez maior da população e facilitará o crescimento e a prosperidade futura. Entretanto, à medida que as economias emergentes se desenvolvam ainda mais, o mesmo padrão deverá surgir nelas. Consumidores, cansados de produtos genéricos, valorizarão a ofertas de maior qualidade, exclusivas e diferenciadas, que transmitam um certo nível de status.

Implicações: muitos varejistas contatam uma manutenção do número de tíquetes, mas uma redução no seu valor. As causas são várias, mas elas também podem estar associadas ao sortimento da sua loja, que pode ter perdido parte da sua relevância para consumidores, que tem novos desejos e necessidades. A valorização de produtos locais, orgânicos, naturais e menos processados é uma tendência irreversível. Entretanto, não basta ter o produto é fundamental expor e comunicar de forma adequada.

3) Consumidor consciente

Eles são influentes e a tendência se espalhará entre outras pessoas. Preocupações sobre bem-estar animal evoluirão ainda mais e chegarão a setores além de alimentação, beleza e moda, como cuidados domésticos, decoração, ração animal, entre outros. O estilo de vida livre que está ganhando força entre os consumidores modernos de hoje em dia terá cada vez mais “Consumidores conscientes” adotando uma abordagem flexível ao veganismo. Isso elimina o peso dos rótulos e permite que os indivíduos encontrem sua própria maneira de abraçar produtos com origem vegetal. Com os consumidores cada vez mais preocupados com a origem dos produtos, o significado de negócio responsável está mudando, exigindo que as empresas melhorem seus padrões mínimos de bem-estar animal até para os produtos mais comuns. Além disso, a fartura de opções e conscientização do consumidor aumentarão a demanda por produtos premium voltados ao bem-estar.

Implicações: as empresas estão revendo seus sistemas para integrá-los e incluir informações sobre a origem dos produtos, informação que passa a ser valorizada por uma parcela da população. Pensar a longo prazo implica em pensar em processos que facilitem o acesso de informações pelo consumidor por meio de seus smartphones.

Essa demanda vai se intensificar. Em um evento que coordenei pelo FGVcev um executivo comentou a pressão de ativistas para que a organização venda apenas ovos de galinhas criadas livremente nos pastos. As empresas precisarão se posicionar frente a tais demandas.

4) Juntos digitalmente

Nosso conforto cada vez maior em compartilhar com nossos amigos, localização e atividades online resultará no desenvolvimento de novas maneiras de interação. Conforme nossas capacidades tecnológicas e nossa comodidade ao usá-las também aumentará o potencial do que pode ser criado ou vivido junto, mas remotamente. Os setores estão se transformando rapidamente para se adaptar às demandas de opções virtuais. Assim como o Direito, Medicina e outros campos de alta complacência continuam sendo transferidos para o mundo online, os processos que exigem visitas pessoalmente poderão ser substituídos por alternativas digitais. De agências governamentais aos hospitais, as novas tecnologias estão ultrapassando os limites de quais tipos de interações profissionais podem ser feitas online.

Implicações:  O smartphone já está incorporado a vida das pessoas e a tecnologia tem proporcionado conveniência. Entretanto, ainda há atritos relacionados com a qualidade do cadastro e promessas não cumpridas. Esse consumidor/shopper empoderado pela tecnologia tende a intensificar o uso das redes sociais para manifestar suas frustrações. É fundamental ter uma mentalidade organizacional que incorpore tais transformações.

5) Todos são especialistas

Na raiz da tendência “Todos são especialistas” está a necessidade quase compulsiva que os consumidores digitais têm de absorver e compartilhar informações e opiniões. Conforme o comércio eletrônico continua crescendo em todo o mundo, todos os setores terão que se adaptar às novas demandas do consumidor para se manter relevante. Setores que geram “emoção”, como turismo, beleza, moda e alimentação fora do lar estão especialmente envolvidos e receptivos à essa tendência. Esses itens são mercadorias, luxos ou experiências pessoais que têm um elemento bastante subjetivo, em vez de um produto primário sem emoção como papel higiênico ou ração para cães. Portanto, esses setores devem lidar com os desejos de seu público-alvo e satisfazê-los com estratégias de marketing em múltiplas plataformas que lembrem o consumidor de sua importância e individualidade. Agora que todos são especialistas, a abordagem de marketing de “tamanho único” não serve mais.

Implicações: Os clientes chegam nas lojas supostamente mais informados porque utilizam seus smartphones para pesquisar no Google, navegam nos sites das empresas e conversam com seus amigos nas redes sociais formando uma opinião. Eles são influenciados e ao mesmo tempo influenciadores das decisões sobre produtos e locais compra. Preparar a equipe para atender esse cliente mais empoderado é fundamental. Assim, oferecer mais informações na loja e preparar a equipe para interagir com esse cliente mais consciente e exigente é fundamental. Esse é um desafio para o varejo, mas é essencial para aqueles que querem se diferenciar.

6) Valorizando ficar de fora

Embora a conexão com a internet continue sendo uma necessidade importante, consumidores querem definir limites. Eles querem ter espaço pessoal, dedicando-o para atividades propositais e reflexivas, em vez de instantâneas e reacionárias. Os consumidores querem soluções personalizadas que possibilitem o bem-estar mental e seu próprio ritmo. Longe da abstinência completa, os consumidores buscam maneiras de testar sua força mental, limitando o uso intenso da internet para redescobrir a alegria de viver o presente e interações da vida real.

Implicações: Na história da humanidade nunca produzimos tantas informações e geramos tantas opções.  Nesse contexto, uma oportunidade é facilitar a vida do cliente com a curadoria de conteúdo, ou seja, simplificar a vida do cliente, esclarecendo suas dúvidas e reduzindo suas incertezas. Essa iniciativa é fundamental para aquelas empresas que tem como meta deixar de concorrer apenas em preço e oferecer uma solução para os clientes.

7) Posso cuidar de mim mesmo

A tendência de consumo “Posso cuidar de mim mesmo” se tornará uma maneira importante de reduzir o barulho causado pelas mídias sociais intermináveis e onipresentes, trazendo o foco às necessidades pessoais. À medida que os consumidores se tornam cada vez mais cientes das armadilhas das mídias sociais, os próximos cinco anos verão pessoas procurando experiências, produtos e marketing mais reais. Em vez de contar com marcas que oferecem apenas soluções determinadas, fixas e curativas para os problemas da vida, o consumidor vai se desligar da badalação para se concentrar em produtos e serviços que possam personalizar e que atendam às suas próprias necessidades, e não as de uma blogueira famosa.

Implicações: As pessoas tendem a valorizar a comunicação mais personalizada e aqui não é enviar o mesmo tabloide de forma digital para todos. Personalizar ou segmentar a comunicação é fundamental. A comunicação precisa tocar o coração e a mente da pessoa. O cuidado com essa comunicação é ela ser coerente com o que a empresa faz. Há uma tendência de cada loja também ser operada de forma personalizada, ou seja, com maior interação com a sua comunidade e isso demandará transformações profundas nas lojas. O gerente passa a ter um novo papel para interagir com a sua comunidade com impacto no sortimento e na comunicação. Essa forma de atuar já é praticada intuitivamente por muitos que operam lojas de vizinhança.

8) Quero um mundo sem plástico

O desejo de um mundo sem plástico é em grande parte gerado pelo consumidor e ganhará mais força em 2019 e no futuro. Com o aumento da compreensão dos diversos usos do plástico na sociedade moderna, a ênfase será colocada no uso responsável. Enquanto alternativas ao plástico, como cápsulas de água feitas de algas marinhas no lugar de garrafas plásticas de água, continuam sendo desenvolvidas, as promessas corporativas de reciclagem / reutilização também são um passo positivo. Já estamos vendo mais força por trás da economia circular, muitas vezes gerada pelas pessoas comuns, com dejetos de embalagens plásticas sendo coletados e reutilizados continuamente, e isso deverá continuar em 2019.

Implicações: os líderes do varejo precisam ter consciência das consequências de suas ações na sociedade. A logística reversa e a economia circular são iniciativas que se consolidarão. Os clientes valorizarão as empresas que atuarem de acordo com essa tendência.

9) Eu quero agora

As grandes empresas de tecnologia com acesso aos dados dos usuários estão prontas para explorar essa tendência ao máximo no curto prazo. Essas empresas poderão empregar recursos e pesquisas da tecnologia 5G, inteligência artificial e Internet das Coisas para ajudar os consumidores a economizar tempo e dinheiro. À medida que os consumidores contem com a eficiência desses produtos e serviços, eles começarão a esperar o mesmo nível de serviço de todas as empresas, independentemente de seu tamanho. No centro da tendência está o gerenciamento dos dados do usuário, o acesso da empresa a essas informações e seu uso. A confiança do público quanto a esse acesso e como ele será usado determinará, por fim, a longevidade dessa tendência. Empresas menores podem ter sucesso se copiarem as grandes organizações enquanto atendem as preferências de nicho.

Implicações: a forma como a sua organização responde ao cliente precisa ser repensada. O Serviço de Atendimento ao Consumidor – SAC precisa ser ágil, humano e os processos precisam ser integrados para proporcionar acolhimento e uma resposta rápida. O programa de fidelidade, baseada em pontos com recompensa no longo prazo, precisam ser revistos para contemplar recompensas imediatas.

10) Vivendo em solitude

Viver sozinho não é uma tendência específica de uma geração ou cultura. As pessoas de todo o planeta estão acabando com o estigma da solitude e assumindo sua independência. Esses consumidores são mais atentos aos seus gastos e muitas vezes procuram experiências que estimulem o companheirismo, seja adotando um animal ou viajando em grupos. As pessoas estão, cada vez mais, desistindo da ideia de encontrar um parceiro para a vida toda. As marcas têm um longo caminho a percorrer para conquistar esse grupo de consumidores enquanto eles desenvolvem seus estilos de vida independentes.

Implicações: Lares menores implicam em sortimentos com porções individuais e propor soluções. A loja física também pode se tornar um centro de refeições (café da manhã, almoço e jantar) e oferecer inclusive assinatura de refeição personalizada.  Para fazer esse ajuste é fundamental conhecer o perfil do cliente da loja (física ou virtual). Diante do crescente número de pessoas morando sozinhas, transformar a loja para que atenda essas necessidades por porções menores e realizar eventos que promovam o convívio na loja, ou seja, experiências são ações que podem fidelizar o cliente.

As implicações colocadas aqui não têm a pretensão de esgotar o tema e muitos menos “estão escritas em pedra”. O objetivo foi promover a reflexão. O estudo completo da Euromonitor Internacional sobre as 10 Tendências Globais de Consumo 2019 pode ser acessado em: http://bit.ly/2HqiZQN

Olegário Araújo é cofundador da Inteligência360 e pesquisador do FGVcev – Centro de Excelência em Varejo da FGV-EAESP


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