Artigo 14:13 - 12 de junho de 2020

Nas últimas semanas assistimos a uma eclosão de manifestações contra o racismo, mesmo durante a pandemia, em decorrência do assassinato de  George Floyd, um homem negro de 46 anos em Minneapolis. Um clamor – NÃO CONSIGO RESPIRAR -  durante 8 minutos e 46 segundos, registrado em um vídeo, fez com que o mundo despertasse para a questão racial  e  a importância de lutarmos por um mundo com mais igualdade e equidade.

Não somos um só Brasil, o racismo estrutural e institucional nos divide, exclui e mata. As estatísticas amplamente divulgadas desconstroem o mito da democracia racial, destaco alguns números **:

  • A cada 23 minutos um jovem negro é morto, de acordo com a ONU;
  • 66% vítimas de violência contra a mulher, são de mulheres negras;
  • 63,7% dos desempregados são negros ou pardos;
  • Entre as pessoas que vivem em extrema pobreza, 70,8% são negros;
  • 53,6% das famílias são chefiadas por mulheres negras
  • Uma mulher negra ganha em média 60% a menos que um homem branco.

Como falar em meritocracia com esse cenário? Precisamos de AR! Notas de repúdio e posts pretos com hashtags - #vidasnegrasimportam - não diminuem a desigualdade, não criam oportunidades. Não há como avançarmos economicamente, quando excluímos do jogo 54% da população. Quantas ações de conscientização, grupos, talks, estudos serão necessários para que todos entendam que uma sociedade mais inclusiva, mais igualitária é bom para as empresas, para a política e principalmente para a economia?  Não há progresso, sem inclusão.

É chegada a hora do setor varejista independente do porte ou segmento, lidar com a questão da inclusão racial, o setor que é o segundo maior empregador do país pode ser um dos principais agentes de mudança – não apenas contratando na base, mas apoiando programas de formação de lideranças. Algumas redes de grande porte, iniciaram programas de diversidade e inclusão onde as ações no pilar raça/etnia, são consideradas referência no mercado, como por exemplo, o Carrefour. No entanto, o afunilamento hierárquico é visível, os programas contemplam apenas a equipe de base (vendedores, operadores de caixa e estagiários), como se não existissem profissionais qualificados para ocupar posições de liderança no setor.

É preciso sair do discurso, para a prática. Momento de ser um agente da transformação, como pessoa e/ou como organização. Faço um convite para o bom combate, convido à luta antirracista, até porque, não basta não ser racista. 

 Algumas sugestões para avançar nessa pauta:  

 - Mapeie quantos negros/negras moram no seu condomínio, estudam na escola do seu filho, trabalham no seu departamento, na sua empresa? 

 - Na sua empresa quantos estão em posição de liderança? Nos processos seletivos existe diversidade no perfil dos candidatos? Estabeleça metas de diversidade por setor.

-  Leia sobre a questão racial no Brasil e exclua do seu vocabulário expressões racistas. Alguns livros que recomendo: Pequeno Manual Antirracista – Djamila Ribeiro, Racismo Estrutrural – Silvio de Almeida, Escravidão – Laurentino Gomes, Retratos do Brasil Negro - Lélia Gonzalez.

- Garanta diversidade de palestrantes em seus eventos. Tenho uma lista de pessoas negras especialistas, doutores e mestres para falar sobre tecnologia, economia, finanças, varejo entre outros temas, que terei o prazer em compartilhar.

A inclusão da população negra nas empresas varejistas, não é um desafio, é uma escolha que requer vontade. Por convicção ou por conveniência, já passamos da hora de termos a normalidade da diversidade nas empresas e instituições.  E caso queira falar mais sobre a questão racial, economia , política, negócios em geral  estarei a disposição para um café virtual.

**Fonte: Mapa da Violência 2019/IBGE 2019- Desigualdades Sociais por Raça ou Cor no Brasil

*Jandaraci Araujo é membro do Mulheres do Varejo, Diretora Executiva do Banco do Povo  e possui MBA Executivo pela Fundação Dom Cabral

 


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