Artigo 11:55 - 30 de setembro de 2019

É inegável que o atacarejo cresce de forma acelerada com a abertura de lojas e que o período recessivo pelo qual estamos passando também colaborou para o seu crescimento. Mas a sua expansão começou anos antes do período recessivo, em um momento de crescimento da economia, crescimento real do salário mínimo, crédito facilitado para comprar automóvel etc. Somente a abertura de lojas não explica o “fenômeno atacarejo”.

O formato de loja denominado popularmente de atacarejo (atacado por autosserviço ou Cash & Carry) cresce há muitos anos e ganhou maior evidência quando em 2007 o grupo Carrefour comprou o Atacadão e o grupo Pão de Açúcar se tornou acionista do Assaí. Entretanto, o formato já obtinha sucesso junto ao pequeno varejo, aos clientes HORECA (Hotéis, Restaurantes e Casas Noturnas) e junto ao consumidor final. As aquisições feitas pelas duas grandes redes demonstram a relevância que o formato conquistou e a sua relevância no abastecimento brasileiro. Nos últimos anos, a abertura de lojas, o período recessivo e o crescimento de pequenos empreendedores são fatores que contribuíram para o crescimento do canal. Não era uma onda, como se chegou a ser afirmado.

Atualmente, muitos empresários supermercadistas investem no segmento e alguns acreditam que o formato alcançou o seu nível de maturidade. Mas, o que constatamos é que o formato faz parte dos hábitos de compra de milhões de famílias brasileiras e o seu crescimento continua.

Um estudo contínuo da Nielsen, que acompanha mensalmente o desempenho dos canais, demonstra que o crescimento do atacarejo vai além da abertura de lojas. A comparação da evolução as vendas das mesmas lojas, (Like for Like – L4L) no acumulado do ano até a semana 34 (terminada em 25 de agosto de 2019) quando comparada com o mesmo período do ano anterior, apresentou crescimento de 5% no faturamento total do atacarejo. O destaque foi o crescimento do faturamento dos perecíveis frescos, que foi de 12,3%.

Atacarejo – variação (%) do faturamento nominal – mesmas lojas

Fonte: Nielsen Total Store – L4L BR TOTAL BRASIL C&C EXPO GEO – Cash & Carry Total Store - Acumulado do ano – semana 34 (terminada em 25/agosto/19 em comparação ao mesmo período de 2018)

Esses dados demonstram claramente que o Atacarejo (Cash & Carry – C&C) expande suas vendas além da inauguração de lojas e amplia seu espaço no abastecimento brasileiro.

Esse crescimento traz algumas implicações para o atacarejo, que tem como base uma operação enxuta para ser competitivo em preço. Para quem opera este formato de loja, vale apena analisar, com lupa, o DRE – Demonstrativo de Resultado do Exercício - para se ter uma clareza das despesas e das margens que o formato está operando. O custo operacional de perecíveis frescos e de perecíveis industrializados têm o potencial de aumentar as despesas se não for bem gerido e pode reduzir o diferencial do canal, que é a liderança em custo e consequentemente o preço mais baixo, que é o atrativo do formato. Há notícias de empresas que estão operando com prejuízo no formato pelo aumento do nível de serviço sem a devida busca de eficiência operacional.

Para os supermercados é fundamental não entrar em uma guerra de preços e buscar a diferenciação na experiência de compra, amplitude e profundidade do sortimento e serviço (variedade) e também atuar no sentido de rever processos para automatizá-los e buscar o máximo de eficiência operacional para ser competitivo e ter recursos para investir na diferenciação e, se possível, na personalização da experiência do cliente. Há dois caminhos para o varejo: ser líder em custo ou inovar com eficiência. Se quiser ser tudo para todos, em todas as categorias, não será nada para ninguém. Isto poderá levar a perda de identidade junto ao seu público alvo e levará a relações meramente transacionais, ou seja, guerra de preços.

Dentro deste contexto competitivo, ser uma empresa orientada por dados, tomar decisões com base em fatos é fundamental para ter sucesso. Rever processos, automatizá-los para obter eficiência operacional e construir uma cultura de transparência que permita a colaboração e cocriação de novos caminhos, o que está sendo denominado de intra-empreendedorismo. As lideranças precisam colocar as pessoas no centro para promoverem as transformações culturais, de processo e tecnológicas para garantir seu espaço em um mercado que ficará ainda mais competitivo.

Olegário Araújo é cofundador da Inteligência360 e pesquisador do FGVcev – Centro de Excelência em Varejo da FGV EAESP

Para me conhecer um pouco mais: https://www.linkedin.com/in/olegarioaraujo

olegario.araujo@in360.com.br

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