Notícia 18:33 - 27 de outubro de 2020

A luta contra o preconceito racial ou de gênero ainda é grande, dentro ou fora das empresas, mesmo que setores como o supermercadista procurem ajudar, oferecendo muitas vezes a primeira porta de emprego para jovens negros, por exemplo. E o bate-papo desta quinta-feira (dia 22) com Roberta Anchieta, superintendente da Administração Fiduciária do Itaú Unibanco e co-founder do grupo de afinidade de gênero do Itaú BBA, deixou isso bem claro.

“Qualquer profissional pode ter vários reveses ao longo da sua carreira, afinal todos temos melhorias a serem feitas, mas eles não podem ser atribuídos ao fato de eu ser uma mulher ou negra, como muitos chegam a pensar, por meio do viés inconsciente, que julga o talento de um profissional pela sua cor, gênero ou condição social, ao invés das suas competências para ocupar aquela posição”, defende a executiva, com mais de 20 anos de experiência em altos cargo do Itaú Unibanco.

Durante a live da SuperVarejo, a superintendente fez questão de destacar os preconceitos que enfrenta e o quanto a desigualdade racial atinge também o mundo corporativo, ao ponto de apenas 5% dos executivos brasileiros serem negros e as mulheres negras ocuparem menos ainda esses cargos de liderança, com apenas 0,4%. “Um dos fatores determinantes para que isso ainda aconteça é o viés inconsciente que todos temos, ao estigmatizar tudo que for diferente do que estamos habituados a ver. Por exemplo: vemos mais homens brancos bem sucedidos do que negros, então aos olhos do viés inconsciente de muitos, essas pessoas que se destacam têm mais a ‘cara do sucesso’ do que outras. Este julgamento é feito inconscientemente, de forma automática.”

Já no caso das mulheres, principalmente se elas forem negras, o problema hoje não é mais a entrada no mercado de trabalho, mas sim a dificuldade de conquistar ascensão. Elas podem até estar em maior número quando se trata de formação escolar ou maiores ocupações nas empresas, mas quando se olha para o topo da pirâmide a maioriaque se vê ainda é masculina.

“Há um longo caminho a percorrer para toda essa reparação histórica. O Brasil ainda é uma país machista, patriarcal, e o racismo muitas vezes nem é percebido pelas pessoas, mas está lá, quando as elas propagam as diferenças de raça como se a questão fosse biológica e não de acesso ou de hierarquia social. Enquanto isso acontecer precisaremos manter, por exemplo, o sistema de cotas, que aliás não se trata de cotas para raças mas sim de um direito a uma fração de cotas sociais. Vivemos um racismo estrutural, apesar de 56% da população brasileira ser negra e consumir”, defende.

O que as pessoas e empresas podem fazer para ajudar a reverter esse cenário?

Na opinião de Roberta é preciso haver mais pessoas antirracistas, com brancos “abraçando” mais essa causa dos negros e tendo atitudes que façam a diferença. “Mais do que não ser racista, o antirracista é aquele que defende uma pessoa negra quando ela está sendo humilhada e entende que não se trata de uma questão simplesmente de classe social, mas de um preconceito que subestima qualquer capacidade ou talento. Minha cor e meu gênero chegam sempre antes de qualquer palavra que eu diga. Por isso, precisamos de pessoas brancas, aliadas, antirracistas, que também nos ajudem a advogar em nossa causa e se questione algumas vezes: ‘será que o viés inconsciente não está atuando aqui, neste momento’? O caminho pode ser a educação racial e o antirracismo para que haja mais inclusão e diversidade nas empresas”, conclui.

 

 

 

 

 


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