Artigo 10:20 - 23 de dezembro de 2019
O atacarejo foi incorporado a rotina de 29 milhões de lares (52% do total). Embora os dados apontem para uma maior concentração nas classes AB, o atacarejo é frequentado por todos os níveis socioeconômicos, a faixa etária predominante dos shoppers está entre 30 e 39 anos e famílias com mais de cinco pessoas, ou seja, famílias grandes. Na média Brasil, o consumidor visita este formato uma vez por mês e destina, na média, 10% dos seus gastos neste canal. Estas informações são da Kantar, que visita os lares regularmente. Mas, quais são as transformações do atacarejo?
 
A primeira grande transformação ocorre no perfil demográfico dos compradores. Há uma abertura contínua de lojas, em todas as regiões do Brasil, em todos os portes de cidades. O formato expande para o “interior do interior”, ou seja, avança para cidades com menos de 100 mil habitantes. Isso propiciou uma maior “experimentação”, inclusive pela classe C, que contribuiu com 56% para o crescimento do canal em um período de doze meses terminado em junho/2019. As classes AB contribuíram com 22%, o mesmo percentual das classes DE. Junto com essa maior contribuição da classe C, constata-se um aumento da penetração (presença) de pessoas com até 29 anos e lares com uma ou duas pessoas.
 
Predomina neste formato de loja é a compra de abastecimento, ou seja, grandes quantidades, que no geral apresenta uma variedade maior de categorias. Esse tipo de compra responde por 75% das compras no atacarejo. Desde 2017, constata-se o aumento da importância da compra de reposição, que se caracteriza por compras intermediárias que geralmente complementam com itens que faltaram na compra regular, que representava 6,7 do total do faturamento e em 2019 responde por 8,6%. O restante das compras, 16,4%, correspondem à compras de necessidade específica ou de proximidade que se caracterizam por embalagens menores, um menor número de itens e com menor desembolso. Há também uma mudança no ranking das principais categorias compradas. Em 2019, sabonete, desodorante e creme dental estão listadas entre as principais categorias vendidas no canal.
 
A expansão do formato passa pelo “interior do interior”. Na grande São Paulo, 77% dos lares já compram no atacarejo, mas no interior essa taxa de penetração é de 56%, ou seja, em um período de 12 meses, de cada 100 lares, 56 fizeram compras no formato pelo menos uma vez. No estado da Bahia, na área metropolitana de Salvador, 85% dos lares compram no atacarejo e no interior 53%. É na Grande Rio de Janeiro que há um menor número de lares comprando no canal. No período de um ano, de cada 100 lares, 43 foram pelo menos uma vez neste tipo de loja.
 
Da perspectiva demográfica, constatou-se que, em um período de 12 meses (até junho/19) que a contribuição para o crescimento do atacarejo ocorreu por meio de shoppers com menos de 29 anos, lares compostos de uma à duas pessoas e a classe C.
 
O formato veio para ficar? Uma pergunta frequente é com o aquecimento da economia, os consumidores deixarão de comprar no formato. Embora não tenhamos estudos para fazer uma afirmação, pesquisas internacionais de marcas próprias, apontam que uma parcela expressiva tende a continuar a comprá-la mesmo após a melhoria da renda. Podemos supor que o mesmo acontecerá com o formato atacarejo. Momentos de crise proporcionam importantes aprendizados e uma parcela das pessoas tende a sair dessas situações mais racional e mantem os novos hábitos adquiridos.
 
Entretanto, por se comportarem de forma mais racional, ficarão atentas ao principal benefício do canal que é um preço relativamente mais baixo que outros formatos de loja. Caso o canal tenha que aumentar seus preços para melhorar a rentabilidade e o consumidor não perceba claramente a economia, poderá mudar de canal. Cabe lembrar que a percepção é de economia é um fator importante. O atacarejo se beneficia da economia de
escala, ou seja, o grande volume, mas no momento que começa a ter mais amplitude e profundidade no sortimento e agregar mais serviços, pode colocar em risco a o seu principal atributo, que é o preço relativamente mais baixo quando comparado com outros formatos.
 
Nessa transformação do formato, constata-se um aumento dos serviços, o que inclui o sortimento. Especialmente os executivos de empresas regionais, que operam o formato atacarejo, precisam ter dados para acompanhar o comportamento de compra de seus clientes e estarem alertas ao possível abandono pela ausência de percepção de diferenciação com o supermercado em uma economia mais aquecida. Sem um acompanhamento disciplinado do CMV/margem bruta e quais atributos são importantes para os clientes e o seu índice de satisfação, o canal pode, ao longo dos anos, perder a diferenciação e os cliente os abandonarem. Só o tempo dirá. Aguardemos a evolução do formato em uma economia aquecida!
 
Este artigo foi escrito em parceria com Deborah Maeda, Retail & Client director, da Kantar.
 
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Olegário Araújo - Cofundador da Inteligência360
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Deborah Maeda - Retail & Client director - Kantar
deborah.maeda@kantar.com

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