Artigo 10:52 - 17 de setembro de 2020

Apesar do aumento do consumo in home durante a pandemia (+12,9% em valor gasto em março, +7,1% em abril, +17,8% em maio e +15,6% em junho), o mais atual estudo da Kantar aponta que esses números provavelmente não continuarão a crescer por muitos meses devido a outro índice que também subiu: a taxa de desemprego no país. Analisando os efeitos da pandemia no consumo de FMCG, quando um membro da família perde o trabalho, os gastos in home sobem no curto prazo, mas retraem no longo. Para efeitos de comparação, outro levantamento da companhia mostrou que as famílias em que um dos membros perdeu a renda no último semestre de 2017 aumentaram os gastos, em média, 2,2% nos primeiros seis meses, mas reduziram o mesmo número para -4,8% no intervalo de um ano. Com essa lógica, com o passar dos meses, as compras passam a ser mais bem planejadas e canais e marcas com melhor custo-benefício são priorizados.

Quando olhamos para os quatro primeiros meses da pandemia - de março até junho - já é possível notar semelhanças com esse cenário. Entre eles, a aceleração em 21,6% das marcas próprias em relação ao mesmo período do ano passado. Ao todo, são 2,2 milhões de novos lares que passaram a incluí-las no carrinho na tentativa de equilibrar o orçamento. Nesse período, destaque para o Dia% e Carrefour Hiper como os players de maior alcance no segmento.

No longo prazo, o desenrolar da pandemia poderá apresentar ainda outros cenários distintos para o consumo de FCMG no Brasil. Caso os índices de desemprego continuem a crescer, a tendência é de redução de disponibilidade de renda no mercado, fazendo com que marcas próprias e busca por promoções tornem-se  cada vez mais importantes. Outro ponto a ser considerado é a flexibilização ou não do distanciamento social. Nesse quesito, os índices de consumo in e out home podem sofrer alterações, assim como a busca por serviços de delivery e e-commerce e o contínuo incremento das categorias de higiene.

Por falar em e-commerce, no Brasil o canal ganhou 9,1% de penetração nos últimos 12 meses terminados em junho de 2020. Entre as 5,7 milhões de famílias que passaram a fazer uso do canal, os maiores aumentos vieram dos lares de classe alta, pessoas com mais de 50 anos e lares independentes. No país, categorias como colônia, fraldas descartáveis, cremes e loções, além de ração para gatos e cães, já têm o comércio eletrônico como canal dominante. Ou seja, independente do cenário que se apresente a seguir, fato é que o digital não é mais uma opção e mora aí parte das oportunidades que varejistas e fabricantes podem ter nos próximos meses ao ficarem de olho em como os brasileiros respondem a esse momento quando a preocupação é abastecer suas casas.  

Deborah Maeda é Especialista em comportamento do shopper e Diretora de Retail e Clientes da Kantar, com atuação na consultoria estratégica e tática dos clientes varejistas e indústria em suas diferentes áreas.

 

 


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