Artigo 10:15 - 09 de abril de 2020

O consumidor, como conhecíamos, não existe mais. Os hábitos de compra do início de 2020 mudarão para sempre.  É difícil saber o todo da transformação, mas deve ser a mudança mais radical das últimas décadas – com velocidade e profundidade.

Chamaríamos de louco alguém que em 2019 nos falasse que no ano seguinte passaríamos dias isolados em casa, que não tocaríamos em ninguém, nada de abraço ou aperto de mão, e que nas raras saídas de casa exibiríamos uma versão mascarada de nós mesmos. De fato, parece que vivemos um filme de ficção.

Descobrimos que o ser humano do abraço, o caloroso, é o mesmo que, de forma não intencional, transmite um vírus que pode atentar contra a vida.

Quando lermos este artigo daqui a alguns anos, ainda vamos julgá-lo um tanto ingênuo, pois as transformações no mercado e no comportamento de compra poderão ser muito maiores do que as que foram estimados.

É interessante ver como as pessoas respondem a situações inusitadas. Quando foram informadas que deveriam ficar em casa por conta do Covid-19, veio um comportamento de insegurança e, para alguns, de desespero, com clientes correndo para supermercados, farmácias e a outros estabelecimentos, e provocando demandas muito maiores que o convencional de uma série de produtos. Coube aos compradores do varejo fazer enorme esforço para entender os novos padrões de consumo e acertar os parâmetros de compra e abastecimento. Como resultado, excesso ou falta de estoque.

Vale um exercício de tentar predizer o que mudará no comportamento de compra dos clientes após esse enorme tsunami viral e seus impactos econômicos.

Pode se imaginar que a volta ao normal, na verdade a um “novo” normal, se dará lentamente, com muitos ainda receosos do contato humano. Muitos sem emprego. Muitos endividados. Outros, ainda mais endividados do que já estavam. Salários menores. Pequenos empreendedores, profissionais liberais, terão menor poder de compra em função dos seus negócios gerarem um faturamento mais baixo. Esses, dependendo dos produtos e serviços, farão a escolha entre não comprar, comprar menos, substituir por outros produtos similares ou ainda migrar para marcas mais baratas, ao que chamamos de trade down no consumo. Por conta disso, produtos premium, que ganhavam mercado com o crescimento da renda, vão sofrer um impacto considerável.

Faça você mesmo. Do dia para a noite, as pessoas tiveram que aprender a fazer por sua conta uma série de atividades que antes demandavam de terceiros. Uma parte dessas atividades deve continuar sendo feita por nós mesmos, seja porque aprendemos a fazer o que achávamos que era difícil ou porque percebemos que conseguimos economizar.

Hygiene lover. Após tantas semanas trancafiados em casa, desinfetando tudo e a todos, limpando a casa como nunca, os consumidores manterão alguns desses hábitos, aficionados por produtos de higiene. Muitos produtos vão ganhar destaque, bem além do célebre álcool em gel e das máscaras.

Minha saúde como nunca. De repente, o mundo todo com medo de morrer. Quem sabe agora muitos finalmente deixarão de fumar?! As pessoas, que já vinham aprendendo a escolher produtos mais saudáveis, e que também já liam as informações nutricionais nos rótulos dos produtos, terão interesse ainda maior em itens para imunidade e, também, em alimentos que funcionem como remédio ou prevenção. A falta do dinheiro, porém, vai ser um obstáculo no primeiro momento.

A Europa tem muito a nos ensinar. Nos momentos de crise, o consumidor migrou com mais intensidade para as marcas próprias dos varejistas. E lá, os varejistas fizeram o seu dever de casa. Passaram a ser rigorosos no desenvolvimento das suas marcas e produtos, com a seleção de fornecedores com alto nível de segurança e performance. O consumidor europeu passou a fazer o que chamam de “escolhas inteligentes”, ao preferir produtos que possuem qualidade igual ou superior aos das reconhecidas marcas de mercado, porém mais baratos, por não conterem custos de marketing, equipes de vendas, incentivos, entre outros. 

O Brasil está no mesmo caminho. Já temos muitos varejistas que estão prontos, como Carrefour, Grupo Pão de Açúcar, Lopes Supermercados, Drogaria São Paulo, Extrafarma, Petz, Coop e tantos outros, que possuem programas robustos de desenvolvimento, controle e gestão das suas marcas, que conferem grande qualidade e segurança aos produtos. O consumidor não encontrará motivos razoáveis para fugir dessas marcas.

Aceleramento digital. Aprendemos a ficar mais em casa, a trabalhar em casa. Fazer tudo de casa. Muitos experimentaram as compras pela internet, outros as intensificaram. Passamos a ter maior conforto com as ferramentas digitais que estão disponíveis. Delivery ganhou um significado maior nas nossas vidas. Foi educativo.

Minimalismo. Conhecemos o que é supérfluo. Aprendemos a viver sem muito do que vivíamos e achávamos indispensável. Menos “ter” e mais “ser”. É provável que o consumidor passe a dar mais valor a coisas simples. Com isso, roupas de marcas caras, produtos de beleza, bens duráveis e muitos outros, tendem a ocupar um menor espaço no bolso do consumidor. É provável que o consumo exagerado e artificial perca espaço para o mundo das sensações, das experiências e das atividades corriqueiras e despretensiosas. E de imediato vamos amar fazer muitas das coisas das quais antes reclamávamos.

Após esses dias estranhos, outros muito melhores virão. O consumidor vai ser diferente. Que as pessoas possam utilizar o consumo para o bem verdadeiro, de si e dos que estão ao seu redor.

 

Antônio Sá é empresário, professor e palestrante. Sócio fundador da Amicci. Apaixonado pelo varejo.

 


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