Entrevista Notícia 10:47 - 14 de novembro de 2019

Já se foi o tempo em que o PDV dos supermercados era apenas o local de exposição e venda de produtos, onde os clientes percorriam os corredores atrás da lista de compras que levavam nas mãos. A palavra que dita o que todos querem agora é uma só: experiência. A afirmação é do vice-presidente executivo de desenvolvimento e negócios da Kantar, o estadunidense Chris Mc Carthy.

Em entrevista à jornalista Nathalie Gutierres, o executivo, que tem entre suas atribuições gerar crescimento às empresas ao identificar inovadores produtos como também auxiliar a desenvolver estratégias de negócios superiores, utiliza a percepção do shopper como entrada para o novo processo de desenvolvimento de produto e marca.

Mc Carthy mostra que é fundamental olhar para os produtos como oportunidade de deixarem de ser commodity para serem motores da experiência no momento da compra, e então saírem na frente da concorrência. Ele também mostra que as grandes lojas estão desaparecendo do mercado e as pequenas resistem e saem na frente, desbancando a concorrência.

Hoje em dia, qual é o significado da inovação quando falamos sobre as estratégias dos varejistas?
Vamos pegar como o exemplo o café. Antigamente, degustar a bebida era algo simples e o café era uma commodity. E agora é um serviço, é levar uma experiência diferenciada ao cliente, com o grande exemplo da rede de cafeterias Starbucks. O mesmo se passou com as cervejas, quando as mainstream dominavam e hoje são as craft beers que estão na moda. Os supermercados somente vendem alimentos e isso é uma ameaça, pois é preciso levar experiência aos shoppers.

Já se foi o tempo das grandes lojas físicas?
As big box retailers (termo em inglês para as lojas que ocupam grandes áreas, como shoppings e supermercados) estão morrendo em detrimento das lojas online. Por outro lado, vemos também que as lojas menores persistem e as grandes desaparecem, porque não oferecem experiência. E essas operações pequenas estão sobrevivendo porque apostam em inovação, assim como as lojas online.

E o consumidor hoje é omnichannel...
Atualmente, as lojas físicas estão concorrendo com apps de outros negócios e, se formos olhar dez anos atrás, os supermercados concorriam com supermercados. E isso está ficando significativamente mais complexo. Então é preciso mudar o investimento, o modo que se olha para o varejo. Os millennials estão com novas demandas...

Como o varejista se transforma na Starbucks do setor supermercadista?
Esse é o desafio. As tecnologias no ponto de venda podem ajudar nisso, exercem muitas funções para os supermercadistas e estão mudando a forma como eles trabalham. Qual é a frequência que os clientes colocam determinado produto na cesta de compras? Lembrando que tecnologia não é a força que irá conduzir o varejo, mas dará suporte aos negócios e vai ajudar a entender por que as pessoas vão até a sua loja e por que não vão.

Mais uma vez, é oferecer experiência diferenciada para os clientes, certo?
Sim, personalizar a experiência de compra é um bom caminho. Um exemplo são os consumidores que gostam de comida gourmet. Se o supermercado criar um modelo de delivery diferenciado para entregar esse tipo de prato, ele estará resolvendo um problema. Como já disse, as grandes lojas estão desaparecendo e 52% da lista dos 500 maiores varejistas da revista Fortune já sumiram. Como podemos ver, tornar-se obsoleto é um rápido processo.

Como uma empresa pode identificar que existe uma oportunidade para investir em um novo produto ou serviço?
É preciso olhar para o crescimento do consumo por meio do comportamento do shopper, esse é o único caminho. É visualizar as oportunidades por meio da identificação dos problemas. Ainda no exemplo do café, se formos olhar para 10 a 15 anos atrás, os consumidores olhavam para o produto. Hoje a experiência é o que manda, o que é disruptivo.

Três dicas para o supermercado inovar:

- Percorra os corredores da loja e identifique que tipo de negócio você é. Isso vai ajudá-lo a se tornar competitivo.
- Veja que categorias iguais de grandes marcas estão brigando entre elas. É o momento de deixar que elas deixem de ser commodities e ofereçam experiência aos clientes.
- A tecnologia é disruptiva e está mudando o jeito de comprar. A próxima inovação do varejo é resolver um problema da vida e não de compra. É apostar em algo criativo.

 


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