Por Redação
6 de abril de 2026Fechamento de supermercados aos domingos pode afetar vendas e consumo
Especialista em varejo analisa os riscos operacionais, os possíveis impactos sobre vendas e experiência do cliente e as estratégias que as redes podem adotar para reduzir perdas caso a medida avance
A possibilidade de fechamento de supermercados aos domingos tem ganhado espaço em discussões trabalhistas e regulatórias em diferentes cidades brasileiras. Embora o debate esteja frequentemente associado a questões de jornada de trabalho e organização das escalas, especialistas do setor alertam que a medida pode gerar efeitos relevantes na operação das lojas, na experiência de compra e no desempenho comercial do varejo alimentar.
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Segundo o especialista em varejo Alberto Serrentino, a principal consequência imediata seria a redistribuição do fluxo de clientes ao longo da semana, com concentração especialmente no sábado e, em menor grau, na segunda-feira. Esse deslocamento de demanda pode provocar gargalos operacionais nas lojas, pressionar rotinas logísticas e comprometer a experiência de compra, uma vez que o sábado já é tradicionalmente um dos dias de maior movimento no supermercado. Dados da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) indicam que o fim de semana responde por uma parcela significativa do fluxo semanal de consumidores, reforçando o peso operacional desses dias para o setor.
Além do impacto operacional, Serrentino destaca que o fechamento dominical também pode resultar em perda efetiva de vendas. Embora parte do consumo migre para outros dias, uma parcela das compras, especialmente as não planejadas ou de conveniência, tende a ser absorvida por outros canais e formatos, como farmácias, plataformas de delivery e e-commerce alimentar. Em entrevista ao portal SuperVarejo, o especialista analisa os principais riscos operacionais, os possíveis efeitos sobre indicadores do setor e as estratégias que os supermercados poderiam adotar para mitigar perdas caso restrições desse tipo avancem no país.
SuperVarejo: O fechamento dos supermercados aos domingos tem sido discutido em diferentes cidades brasileiras. Do ponto de vista operacional, quais são os principais riscos que essa medida pode gerar para a gestão das lojas?
Alberto Serrentino: Olha, do ponto de vista operacional, você vai ter certamente uma sobrecarga no sábado, então a loja vai ser mais demandada no sábado, porque ele acaba capturando uma parte com certeza grande e na segunda-feira, então tem que ajustar o modelo operacional para você ter capacidade de dar vazão à demanda incremental de sábado, isso pode gerar pontos de gargalo operacionais e com certeza segunda-feira vai ficar também mais demandada e mais sobrecarregada, então segunda-feira que é um dia de rotinas operacionais, às vezes menos movimento e aí você tem recebimento de mercadoria, porque normalmente não se abastece loja no domingo, ela vai ficar uma rotina sobrecarregada com mais fluxo de clientes, além daquilo que já normalmente se faz no começo da semana.
SV: Como a restrição de funcionamento aos domingos pode impactar indicadores críticos do varejo alimentar, como fluxo de clientes, ticket médio e giro de estoque?
AS: Do ponto de vista comercial, certamente tem perda de venda, porque uma parte dessa venda vai ser capturada em outros dias, ela vai migrar, numa parte não, existe venda de impulso, existe venda não programada, existem categorias no supermercado que têm alternativas em outros formatos, então uma parte dessa venda pode ir para farmácia, uma parte dessa venda pode ir para delivery, plataformas de delivery, uma parte dessa venda pode ir para e-commerce, que não para aos domingos, então certamente uma parte disso é venda perdida.
SV: Se restrições de funcionamento aos domingos forem adotadas no varejo alimentar, que mudanças de canal ou formato de compra o consumidor tende a fazer?
AS: Os consumidores vão ter ajustes de várias formas. Vão deslocar uma parte dessas visitas do domingo para o sábado, para sexta ou para segunda-feira, vão talvez buscar alternativas de canais disponíveis quando precisarem e não tiverem os supermercados abertos, adequando às rotinas e, certamente, isso vai empurrar mais para o digital.
SV: Quais impactos operacionais essa mudança pode provocar na logística de abastecimento, especialmente em categorias perecíveis como hortifrúti, açougue e padaria?
AS: Aí é relativamente menor porque você não tem muito abastecimento de loja nos domingos. É a mesma coisa da operação, você vai ter redistribuição disso provavelmente para sábado de segunda e reprogramação, mas obviamente mexe muito com as rotinas daquilo que é manipulado em loja, mas eu vejo nisso um impacto menor.
SV: Do ponto de vista da experiência do consumidor, quais efeitos podem surgir quando um dos dias tradicionalmente mais fortes de compras deixa de estar disponível?
AS: Para a experiência do cliente é subtração de serviço, né? O supermercado está tirando opções. Consumidores não gostam de ter limitações de opções, pelo contrário. Então, para a experiência do cliente não é bom. Principalmente porque você vai ter uma piora também na qualidade da experiência do sábado, que vai ficar sobrecarregado.
SV: Caso o fechamento aos domingos se torne uma realidade em algumas regiões, quais estratégias operacionais os supermercados poderiam adotar para mitigar perdas de faturamento e manter eficiência?
AS: O que os supermercados vão ter que fazer é reforçar a operação no sábado, talvez na própria sexta, e criar alternativas de funcionamento que não sejam baseadas em loja. Então, por exemplo, usar Dark Rooms ou Dark Stores para fazer entrega aos domingos com a loja fechada. Precisa ver a questão regulatória, porque, obviamente, estamos falando de suposições, mas caso as lojas não possam abrir, mas elas possam funcionar, você pode operar a loja como uma Dark Store e fazer entregas para compras online, usando o estoque da loja, e aí você não deixa de atender o cliente. Isso pode ser feito diretamente ou por plataformas de delivery.
SV: Na sua avaliação, essa discussão tende a se consolidar como um tema estrutural para o varejo alimentar brasileiro ou deve permanecer como um debate pontual ligado a contextos locais?
AS: Não acredito que isso vai se tornar uma onda, agora, não dá para descolar também essa discussão da discussão das escalas, porque indo para um modelo de redução de jornada com a escala 5x2, pode até ser que em alguns casos as empresas optem por não abrir no domingo para tentar acomodar melhor a alocação de funcionários nos outros dias. Então, o eventual avanço dependendo da maneira como for regulamentado das escalas e cargas horárias, pode acabar impactando também as discussões sobre a abertura aos domingos.
