Por Redação
14 de setembro de 2026Mercado livre de energia: quando a migração começa a fazer sentido para o supermercado
Peso da energia nos custos, perfil das lojas, contratos e capacidade de gestão determinam quando a mudança pode gerar economia e quais riscos precisam ser controlados.
A migração para o mercado livre de energia começa a ganhar relevância para redes supermercadistas que precisam reduzir despesas e aumentar a previsibilidade dos custos, mas a decisão não pode ser baseada apenas no número de lojas ou no volume consumido. Para o varejo alimentar, a análise passa pelo peso da eletricidade na estrutura operacional, pelo comportamento da demanda e pela capacidade de administrar contratos. Ao mesmo tempo, a expansão desse ambiente exige mecanismos de segurança para o consumidor, como o Supridor de Última Instância (SUI), consolidado na regulamentação e defendido pela Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE).
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Segundo Ricardo Simabuku, diretor-presidente interino da CCEE, a consolidação do mecanismo está relacionada à proteção dos consumidores e à segurança do mercado em expansão. “O SUI é o mecanismo que assegura o atendimento emergencial e temporário de consumidores do mercado livre em caso de saída, falência ou desligamento do comercializador varejista responsável por sua representação. Sua consolidação na regulamentação atende a uma reivindicação da CCEE, reforçando a proteção do consumidor e a segurança do mercado livre em expansão”, afirma Simabuku.
Na avaliação do executivo, a segurança desse ambiente também passa pela atuação técnica da CCEE na contabilização e no registro das operações. “A regulamentação consolida o Supridor de Última Instância, mecanismo que a CCEE defendeu ao longo do processo regulatório como forma de reforçar a proteção do consumidor no mercado livre. As regras operacionais do SUI são de competência da Aneel; do lado da CCEE, seguimos com o papel de garantir a contabilização e o registro seguro das operações do mercado”, destaca Simabuku.
Quando a migração passa a fazer sentido
Segundo Leonardo Benedicto, Business Director da Informa Markets, organizadora do Energy Solutions Show, a relevância econômica da migração começa quando a energia ocupa posição importante entre as despesas da companhia. “Com base nas experiências compartilhadas no Energy Solutions Show 2026, o ponto de partida economicamente interessante ocorre quando a energia representa uma das principais despesas operacionais da rede. Uma rede participante do evento opera 313 lojas com consumo médio de 0,3 MWm por unidade, onde a energia elétrica era a segunda maior despesa da companhia. Esse cenário justificou plenamente a migração”, diz Benedicto.
De acordo com o executivo, o perfil de consumo das lojas também é determinante para a análise. “O perfil ideal inclui múltiplas unidades com operação contínua, alto consumo em refrigeração e climatização e consumo estável e previsível. Outra rede varejista que migrou mais de 94% de suas lojas demonstra que, quando a energia representa cerca de 30% dos custos operacionais, a transição para o mercado livre torna-se estratégica para manter a competitividade em um setor de margens apertadas”, afirma Benedicto.
Na visão de Benedicto, os casos apresentados no evento mostram que não existe uma faixa única capaz de determinar, isoladamente, quando uma rede deve migrar. “Portanto, não há um número mágico de unidades ou consumo mínimo, mas sim a relevância da energia no custo total e a capacidade de estruturar contratos que atendam às curvas específicas de consumo do varejo”, salienta o executivo.
Economia depende da contratação
Segundo Benedicto, o potencial de redução de custos aparece associado ao peso da energia na operação e à maneira como a contratação é estruturada. “Uma rede varejista que participou do ESS nos contou que conseguiu uma economia de dois dígitos desde o início da operação no mercado livre, em um setor onde a energia representa cerca de 30% dos custos operacionais. Segundo executivos presentes no Energy Solutions Show, a energia deixou de ser apenas um custo operacional. Ela está sendo algo muito estratégico, porque falamos de contratos futuros, de se manter competitivo no mercado”, analisa Benedicto.
De acordo com o diretor da Informa Markets, a migração exige primeiro uma leitura detalhada do consumo antes da definição dos contratos. “Embora os casos apresentados no Energy Solutions Show não detalhem prazos específicos de migração, as experiências revelam as principais etapas e decisões necessárias para o processo. Primeiramente, é fundamental realizar uma análise detalhada do perfil de consumo, mapeando as curvas específicas do varejo, que diferem da indústria devido à operação contínua das lojas. Em seguida, a estruturação de contratos exige encontrar fornecedores que garantam o atendimento às necessidades específicas de consumo, seguida pela definição de uma gestão de portfólio com contratos de diferentes prazos para equilibrar competitividade econômica e compromisso ambiental”, explica Benedicto.
Para Benedicto, a preparação da rede antes da contratação é decisiva para o resultado. “Para iniciar o processo, é essencial ter em mãos o histórico de consumo detalhado, o perfil operacional das lojas, as metas de sustentabilidade e capacidade de gestão dedicada ao portfólio energético. Executivos presentes no evento destacaram que encontrar fornecedores e contratos que garantam o atendimento às nossas necessidades de consumo é um diferencial significativo, evidenciando que a fase de estruturação contratual é crítica para o sucesso da migração”, destaca.
Onde a estratégia pode dar errado
Segundo Benedicto, um dos principais riscos está em contratar volumes que não acompanhem o comportamento real da operação supermercadista. “Com base nas experiências compartilhadas no Energy Solutions Show, os principais cuidados na contratação de energia no mercado livre incluem a estruturação adequada do volume contratado para atender às curvas de consumo específicas do varejo, considerando a operação contínua das lojas”, aponta Benedicto.
Na avaliação do executivo, a gestão do portfólio também precisa evitar concentração excessiva em um único modelo contratual ou fornecedor. “A gestão de portfólio é fundamental, evitando a dependência de um único tipo de contrato — empresas participantes utilizam contratos de curto, médio e longo prazo para equilibrar competitividade econômica e compromisso ambiental. A escolha criteriosa do fornecedor também se destaca em um cenário onde várias comercializadoras enfrentam dificuldades, levando redes varejistas a optarem por modelos que reduzem riscos, como o Energy as a Service”, observa Benedicto.
Ainda segundo Benedicto, a característica do consumo supermercadista exige atenção à sazonalidade e à exposição aos preços de mercado. “É essencial compreender a sazonalidade e o perfil de consumo diferenciado do varejo, que apresenta consumo contínuo e alta demanda durante o período diurno, além de proteger parte do consumo da exposição de preço de mercado através de estratégias diversificadas, incluindo geração própria”, finaliza.