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Economia
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Por Redação
24 de fevereiro de 2026

Fim da Substituição Tributária abre período de ajustes no varejo

Com novas exclusões previstas já para abril, setor se prepara para uma transição que amplia responsabilidade fiscal e adaptações nas categorias de alimentos e bebidas

Com a exclusão de diversas mercadorias do regime de Substituição Tributária (ST) a partir de 2026, supermercados já se preparam para rever fluxo de caixa, formação de preços e estratégias fiscais em categorias sensíveis como alimentos e bebidas. Considerada uma das mudanças mais relevantes para o varejo supermercadista nos últimos anos, as novas etapas previstas já a partir de abril, alteram a forma como o ICMS é recolhido em diferentes categorias, reposicionando o setor no centro da gestão tributária.

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A Substituição Tributária foi criada para concentrar a arrecadação do ICMS em um único elo da cadeia, geralmente a indústria ou o atacado, e antecipava o imposto devido nas etapas seguintes, incluindo a venda ao consumidor final. Na prática, o varejo comprava a mercadoria com o imposto já recolhido. Agora, com a exclusão desses itens do regime, o ICMS volta a ser apurado ao longo da cadeia, exigindo do supermercado maior controle fiscal, atenção redobrada aos sistemas e revisão da política de preços.

Para Paulo Enrique Mosquera Lopez, advogado Tributário sênior da APAS (Associação Paulista de Supermercados), a mudança deve ser analisada dentro do contexto mais amplo da Reforma Tributária. “A Substituição Tributária é incompatível com a lógica da Reforma, que busca um modelo mais transparente e não cumulativo de tributação sobre o consumo, onde o movimento do Estado de São Paulo antecipa essa transição e exige adaptação técnica e estratégica das empresas”, afirma.

Lopez explica ainda, que o impacto vai além do aspecto operacional. “Quando o imposto deixa de ser recolhido antecipadamente, há reflexos diretos no fluxo de caixa, na apuração de créditos e na formação do preço, e com isso, o varejista passa a ter maior responsabilidade na gestão do tributo, o que aumenta a necessidade de sistemas atualizados e equipes capacitadas”, diz.

No setor supermercadista, em que as margens são tradicionalmente apertadas e a competição por preço é intensa, qualquer alteração na estrutura tributária repercute imediatamente na gôndola. A retirada de categorias relevantes de alimentos e bebidas da ST muda a dinâmica da precificação, especialmente porque a indústria - formadora inicial do preço - também passa a operar sob outra lógica de recolhimento.

Para o presidente da APAS, Erlon Ortega, há riscos de uma transição complexa. “O fim da ST, embora alinhado à Reforma Tributária, traz insegurança jurídica e operacional no curto prazo, já que o supermercadista terá de administrar estoques tributados pelo regime antigo e novas mercadorias já fora da sistemática, o que aumenta a complexidade e o risco de autuações”, pondera.

Ortega também chama atenção para os possíveis efeitos sobre o consumidor, já que qualquer mudança na estrutura de tributação impacta a formação de preços. “O setor trabalha para que essa transição não resulte em aumento ao consumidor, mas é inegável que o período de adaptação exigirá cautela e diálogo entre indústria, atacado e varejo”, alerta.

Um dos pontos mais sensíveis será a gestão dos estoques na virada do regime. Mercadorias adquiridas sob a sistemática da ST convivem, a partir de 2026, com produtos já fora do modelo, exigindo inventários detalhados e controle rigoroso de créditos. Além disso, novas exclusões previstas para abril devem ampliar o alcance das mudanças e gerar novos ajustes operacionais.

Para Lopez, o momento exige planejamento. “Não se trata apenas de cumprir uma nova regra fiscal, mas de reavaliar processos internos, contratos com fornecedores e estratégias comerciais, e aqueles que se prepararem com antecedência terão mais condições de transformar a mudança em oportunidade”.

Apesar dos desafios, o movimento é visto pelos supermercadistas como inevitável diante do novo desenho tributário nacional. A tendência é que o modelo de arrecadação antecipada perca espaço em favor de um sistema mais uniforme e transparente, o que significa assumir papel ainda mais ativo na gestão tributária e compreender que, em um cenário de transformação estrutural, tributo também é estratégia.

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