Por Redação
17 de março de 2026Lixo zero: os desafios (e as oportunidades) para os supermercados
Como disciplina operacional, negociação com fornecedores e inteligência comercial estão reduzindo perdas e transformando desperdício em resultado
Avançar rumo ao conceito de lixo zero no varejo alimentar é um desafio que começa muito antes da gôndola. Envolve negociação com fornecedores, cultura interna, controle rigoroso de estoque e, principalmente, mudança de mentalidade.
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Para Marlon Vale, gerente do Supermercados Leal do Vale, o primeiro grande obstáculo é a comunicação integrada entre loja, indústria e colaboradores. “O lixo zero não depende apenas da operação interna. Ele começa na negociação com a indústria e no alinhamento com parceiros estratégicos”, afirma.
Na mercearia, negociar prazos de validade mais adequados é decisivo para garantir um giro saudável. Já no hortifrúti, o foco está na qualidade e na frequência de abastecimento. “Produtos com padrão elevado e entregas mais frequentes reduzem significativamente as perdas”, explica o gestor.
Mas os processos, por si só, não resolvem. O engajamento da equipe é peça-chave. No Leal do Vale, em Tremembé (SP), o tema faz parte da cultura organizacional, com atuação dedicada da equipe de prevenção de perdas nas duas unidades. “Não adianta ter procedimento se o time não entende o impacto econômico e ambiental do desperdício”, reforça.
Na prática, as iniciativas são objetivas e os resultados, mensuráveis. No hortifrúti, a rede estruturou parcerias com fornecedores que realizam três entregas semanais, permitindo trabalhar com volumes mais assertivos e produtos sempre frescos. A conferência rigorosa no recebimento assegura padrão de qualidade e evita que itens fora de especificação avancem na cadeia.
Investimento em infraestrutura também faz diferença: climatizador no estoque e ar-condicionado na área de vendas ampliam a durabilidade dos produtos. É a gestão de detalhes que impacta diretamente o DRE.
Outro movimento estratégico é o reaproveitamento inteligente. Frutas e legumes com pequenos machucados, mas próprios para consumo, são processados e vendidos cortados, picados ou ralados, embalados a vácuo. A prática agrega valor, reduz descarte e atende um consumidor que busca conveniência.
Quando não há possibilidade de retorno ao fornecedor, produtos ainda adequados para consumo são destinados a instituições locais de Tremembé, como asilos e o Carmelo das irmãs carmelitas, ampliando o impacto social da operação.
Na mercearia, além do acompanhamento diário, a rede promove mensalmente um mutirão setorial: todos os produtos de um setor são retirados das gôndolas, conferidos item a item e reorganizados. O sistema PEPS (primeiro que entra, primeiro que sai) é aplicado com rigor. Para itens próximos ao vencimento, entram em cena estratégias comerciais agressivas para acelerar o giro.
Para Marlon Vale, lixo zero não significa apenas reduzir desperdício. “É transformar perda em oportunidade, seja por eficiência operacional, inteligência comercial ou responsabilidade social.”
