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Tecnologia
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Por Redação
5 de junho de 2026

Quais áreas de gestão dos supermercados já mudaram com Inteligência Artificial

Da precificação dinâmica ao monitoramento de gôndolas em tempo real, inteligência artificial avança no varejo alimentar e transforma decisões operacionais, financeiras e logísticas

A inteligência artificial deixou de ser apenas uma promessa futurista para ocupar espaço estratégico na gestão supermercadista. Ainda em estágio inicial em muitas redes, a tecnologia já vem alterando a forma como supermercados definem preços, administram estoques, planejam compras, monitoram perdas e se relacionam com os consumidores. Mais do que automatizar tarefas, a IA tem ampliado a capacidade analítica das empresas, permitindo decisões mais rápidas, precisas e baseadas em dados. O movimento ganha força em um setor pressionado por margens apertadas, necessidade de eficiência operacional e mudanças constantes no comportamento de consumo.

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Uma das áreas mais impactadas é a operação de loja. Segundo especialistas, ferramentas de visão computacional transformaram câmeras de segurança em plataformas de inteligência analítica capazes de monitorar rupturas, identificar produtos fora do lugar, acompanhar fluxo de clientes e até otimizar escalas de funcionários nos horários de maior movimento.

Para Felipe Wasserman, professor de Trade Marketing da ESPM, a operação passou a ganhar previsibilidade em tempo real. “A IA transformou as câmeras de segurança comuns em ferramentas de inteligência analítica. Na prática, o setor percebe redução drástica em perdas por furto, auditoria automatizada de gôndolas e análise de comportamento de fluxo”, afirma. Ele aponta a integração entre dados e abastecimento como outro avanço importante. “Ferramentas de IA conectam o PDV diretamente com o ecossistema de fornecedores, automatizando o reabastecimento com base na velocidade real de saída dos produtos”, descreve.

Da precificação dinâmica à ruptura antecipada

Na área comercial e financeira, a IA vem mudando especialmente os processos de precificação e previsão de demanda. Algoritmos conseguem cruzar informações de histórico de vendas, elasticidade de preço, clima, sazonalidade, perfil de shopper e até validade de produtos perecíveis para sugerir ajustes automáticos de preço e descontos progressivos antes do vencimento.

Roberto Flores Falcão, coordenador do curso de Administração da FECAP, explica que o ganho está na granularidade das decisões. “Não é mais apenas acompanhar o preço do concorrente. A IA entende qual produto tem maior elasticidade em determinada loja, naquele público e naquele momento. Isso permite reduzir preço estrategicamente para recuperar volume sem comprometer margem”, diz. Para ele, a mudança também altera a forma de atuação dos gestores. “A tecnologia transforma o gestor de ‘apagador de incêndios’ em alguém que age preventivamente, identificando padrões de perdas e anomalias antes que se tornem um problema.”

A previsão de demanda também ganha sofisticação. Modelos preditivos conseguem antecipar picos de consumo considerando fatores externos, como temperatura, feriados e hábitos regionais. Com isso, o supermercado reduz excesso de estoque, melhora o abastecimento e evita ruptura de produtos nas gôndolas.

Na logística, a transformação ocorre principalmente na integração entre lojas, centros de distribuição e fornecedores. Sistemas baseados em IA já automatizam pedidos de reposição conforme a velocidade real de saída dos itens, otimizando rotas de entrega e diminuindo estoque parado. “O conceito muda de ruptura descoberta para ruptura antecipada”, salienta Falcão. “O sistema identifica que determinado item terá falta nas próximas horas e dispara o reabastecimento antes da prateleira ficar vazia.”

Em perecíveis, a tecnologia ganha ainda mais relevância. Ferramentas conseguem analisar ciclo de vida útil, temperatura de armazenagem e taxa de descarte para definir o momento ideal de reposição e markdown, reduzindo perdas operacionais.

Cultura de dados ainda é principal desafio

Além da operação, a IA também avança em áreas de recursos humanos e relacionamento com clientes. Fernando Moulin, CEO da Polaris, destaca o crescimento de soluções voltadas a recrutamento e seleção, especialmente em grandes redes com alta rotatividade. “A IA ajuda a fazer triagem de bancos de talentos, identificar profissionais com maior aderência cultural e acelerar processos de contratação”, conta. O executivo também chama atenção para a necessidade de mudança cultural no setor. “O principal desafio é sair do modelo de ‘piloto eterno’ e repensar processos para construir uma empresa mais orientada por inteligência artificial”, explica.

No relacionamento com consumidores, programas de fidelidade alimentados por inteligência artificial vêm permitindo ofertas hiperpersonalizadas. Redes como Walmart, Grupo Pão de Açúcar, Carrefour e Assaí utilizam modelos que segmentam promoções conforme hábitos de compra, frequência e perfil de consumo dos clientes.

Para Vera Bermudo, CFO, docente da FGV e cofundadora do Wakaro, a principal mudança promovida pela IA está na qualidade das decisões. “A gôndola deixa de ser um ‘chute’ e passa a ser estratégica. Os supermercados que estão colhendo resultado são os que pararam de tomar decisão por percepção e passaram a agir por evidência”, observa. Ela também ressalta que a inteligência artificial depende de estrutura organizacional sólida para funcionar corretamente. “A IA não cria nada, ela amplifica o que a empresa já tem. Se existe eficiência, ela potencializa. Se existe desorganização, ela intensifica o caos”, completa.

Apesar do avanço, os especialistas concordam que o principal desafio ainda não é tecnológico, mas estrutural e cultural. Dados fragmentados, sistemas legados e baixa integração entre áreas dificultam o potencial da IA. As redes que conseguem extrair melhores resultados são justamente as que tratam a inteligência artificial como ferramenta de apoio à decisão e investem na integração de dados, treinamento das equipes e definição clara dos problemas que precisam resolver. Em um setor historicamente guiado por experiência e percepção, o varejo alimentar começa a substituir o “feeling” pela gestão orientada por evidências.

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