Newsletter
Receba novidades, direto no seu email.
Assinar
Varejo
...
Por Redação
2 de março de 2026

Supermercados 24h: vale a pena investir nesse modelo?

Funcionamento ininterrupto ganha novo significado ao ser analisado sob a lógica de dados, custos e comportamento do consumidor urbano

O modelo de supermercado 24 horas voltou ao radar do varejo alimentar brasileiro, mas com um significado diferente daquele observado em ciclos anteriores. Se antes a abertura contínua era vista principalmente como um diferencial de conveniência, hoje ela passa a ser avaliada como decisão estratégica, que depende de viabilidade econômica, perfil de público e uso inteligente de tecnologia. Em um cenário de rotinas fragmentadas, trabalho híbrido e consumo imediato, manter a loja aberta durante a madrugada deixou de ser apenas um gesto de serviço e passou a exigir cálculo fino entre custo e retorno.

LEIA TAMBÉM
SuperVarejo lança guia prático sobre IA no Varejo Alimentar
Do impulso ao planejamento: a virada silenciosa do consumo no supermercado

Para Felipe Wasserman, professor de Varejo da ESPM, o movimento recente reflete mudanças profundas no comportamento do consumidor. “O 24h voltou a ganhar relevância, mas por motivos diferentes de outros ciclos: hoje ele está muito mais conectado ao comportamento do consumidor do que apenas à conveniência tradicional”, observa. Segundo ele, o horário comercial deixou de ser a principal referência para o consumo, já que jornadas flexíveis e rotinas imprevisíveis ampliaram a demanda fora dos períodos convencionais.

Na prática, porém, operar 24 horas continua sendo um desafio. O que mudou foi a possibilidade de diluir custos fixos ao longo de mais horas de funcionamento, desde que exista fluxo mínimo para sustentar, principalmente, despesas com pessoas e segurança. “O 24h deixou de ser apenas diferencial de serviço e passou a ser decisão estratégica baseada em viabilidade operacional”, diz o docente da ESPM.

Onde o 24h faz sentido do ponto de vista financeiro

A viabilidade da operação noturna não é homogênea entre regiões e formatos de loja. Segundo Wasserman, três fatores são decisivos: densidade populacional, perfil de consumo e dinâmica urbana. Grandes centros, áreas com concentração residencial verticalizada, proximidade de hospitais, vias de grande circulação e bairros com forte presença de jovens adultos ou trabalhadores em turnos tendem a responder melhor ao modelo.

Ainda assim, o professor ressalta que não basta olhar apenas para o perfil demográfico. Escala e estrutura de custos são fundamentais. Lojas com bom volume diário, sortimento voltado à compra rápida e despesas já bem diluídas ao longo do dia têm mais chance de sustentar a madrugada. Em praças menores, o risco é evidente: o faturamento adicional pode não compensar o aumento de custos com equipe e segurança.

Essa leitura se confirma na experiência do Carrefour. Marco Alcolezi, diretor executivo de Operações Hiper, Super e Proximidade da rede, explica que o desempenho das lojas 24h tem sido positivo em regiões com alta densidade urbana e fluxo fora do horário comercial. “Embora exista um aumento nos custos operacionais, principalmente com equipes, segurança e energia, o fluxo adicional e o ganho de competitividade têm compensado o investimento”, conta. Atualmente, segundo ele, 64 lojas da bandeira Carrefour operam no formato 24 horas.

Para o executivo, além do retorno financeiro, há um ganho importante de posicionamento. O funcionamento contínuo amplia a proposta de conveniência da marca e reforça a disponibilidade de atendimento ao cliente. Ainda assim, o modelo só se sustenta nas praças em que há demanda real durante a madrugada.

O que medir antes de estender o horário

A decisão de operar 24 horas precisa ser tratada como projeto de rentabilidade, e não como ação de marketing. O varejista deve analisar uma série de indicadores antes de estender o horário de funcionamento. Alguns exemplos: fluxo por hora ao longo do dia e o potencial estimado na faixa noturna, o ticket médio projetado na madrugada, a margem das categorias com maior giro nesse período e o custo incremental de pessoas, considerando adicional noturno e encargos.

Também entram na conta o custo de segurança, o risco de perdas, o índice de ruptura e a capacidade de reposição fora do horário comercial, além do nível de concorrência direta e indireta, incluindo lojas de conveniência e delivery. Para o professor, a lógica é objetiva: a venda adicional precisa cobrir o custo marginal e ainda gerar contribuição positiva. Caso contrário, a operação noturna tende a ampliar problemas de margem já existentes.

Na experiência do Carrefour, os desafios operacionais passam por quatro frentes principais: equipe, segurança, logística e sortimento. Segundo Alcolezi, a rede conta com colaboradores específicos para a operação da madrugada, preparados para manter a qualidade do atendimento e garantir a segurança. “Durante a noite, muitas lojas mantêm os mesmos serviços dos horários comerciais, como padaria, açougue, peixaria e frios, preservando a proposta de conveniência e atendimento completo”, destaca o executivo.

O dimensionamento das equipes, no entanto, é ajustado ao menor fluxo entre meia-noite e seis da manhã, sem comprometer o nível de serviço. Já o sortimento acompanha o perfil de consumo noturno, que privilegia produtos de compra rápida, como biscoitos, salgadinhos, lanches prontos e refrigerantes, além de bebidas alcoólicas nos fins de semana em áreas de vida noturna mais intensa.

Automação e dados mudam a equação do 24h

Se o maior desafio do funcionamento ininterrupto é o custo de pessoas aliado à segurança, a tecnologia passa a ter papel central na equação. Automação, self-checkout, monitoramento inteligente e gestão de estoque mais eficiente reduzem a necessidade de grandes equipes durante a madrugada e aumentam o controle operacional. Quanto menor a estrutura necessária para manter a operação funcionando com segurança e qualidade, maior a chance de viabilidade.

Vale lembrar que tecnologia não substitui estratégia. Sem demanda real, nem mesmo modelos automatizados resolvem o problema. A tendência é que o 24h do futuro seja mais enxuto, orientado por dados e com sortimento ajustado para reposição imediata, priorizando uma experiência rápida e funcional.

Do ponto de vista do Carrefour, o modelo cumpre papel duplo: conveniência e rentabilidade. “O funcionamento 24 horas fortalece o posicionamento da marca e coloca o consumidor no centro das decisões, mas também precisa estar conectado à rentabilidade do negócio, que tem sido alcançada nesse formato”, diz o porta-voz do grupo.

Com consumidores cada vez menos presos a horários tradicionais e operações pressionadas por custos, o supermercado 24h deixa de ser aposta genérica e passa a ser escolha seletiva. O sucesso do modelo depende de praça adequada, leitura precisa de dados e estrutura operacional compatível. Mais do que ficar aberto o tempo todo, trata-se de abrir quando faz sentido econômico — e quando há alguém disposto a comprar do outro lado da porta.

Deixe seu comentário