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Por Daniele Motta
9 de setembro de 2026

Do Perfume ao PDV: Como o varejo deve executar a nova decisão olfativa do shopper

Confira o artigo exclusivo de Daniele Motta, VP de Trade e Shopper Marketing na SHOP! Br

O artigo anterior desta série mostrou que a fragrância deixou de ser detalhe e virou o terceiro critério de decisão de compra em produtos de limpeza, atrás apenas de preço e eficácia. A pergunta que fica agora é operacional: como o varejo alimentar transforma esse critério em execução rentável de gôndola, sem repetir o erro de tratar "shopper de limpeza" como um bloco único e homogêneo? A resposta começa em identificar quem é esse shopper e onde, de fato, a decisão dele é tomada.... porque, cada vez mais, não é na loja.

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Um shopper, cinco lógicas de decisão

Cruzando o comportamento documentado nos estudos de Cuidado com a casa (household care), com os dados de mercado e o fenômeno digital em torno da limpeza, é possível identificar cinco perfis de shopper que respondem a estímulos olfativos de forma diferente, e que, por isso, exigem sortimento e comunicação de PDV diferentes:

  • Tradicional de Marca: compra por hábito e memória olfativa ("cheiro de roupa limpa" de referência), resiste a marcas desconhecidas e associa cheiro forte a eficácia. Só migra de fragrância dentro da própria marca em que já confia.
  • Funcional Consciente: prioriza eficácia e custo-benefício; perfume é bônus, não decisão. É o perfil que sustenta o crescimento das marcas populares e migra para baixo preço (low tier) quando o orçamento aperta.
  • Autocuidado em Casa: trata a "hora da faxina" como ritual de bem-estar e busca "luxo acessível" com notas florais, aquáticas e amadeiradas. Paga mais por experiência, mas dentro de um teto.
  • Geração CleanTok/PerfumeTok: descobre produtos via redes sociais, associa cheiro à própria identidade e romantiza a limpeza como conteúdo. Paga premium em doses pequenas e aqui entram na cesta produto de nicho, edição limitada.
  • Personalizador multissensorial: constrói uma "assinatura olfativa" da casa combinando lava-roupas, amaciante, odorizador e vela em camadas de perfume. É o perfil mais lucrativo por cesta, mesmo sem fidelidade a uma única marca.

Os perfis 1 e 2 ainda representam a maior fatia de volume no Brasil que é confirmado pelos dados de redução de valor (trade-down) entre marcas populares e premium. Os perfis 3, 4 e 5 são menores, mas crescem mais rápido e têm ticket médio superior: são eles que explicam por que a Ypê investiu em uma colaboração de perfumaria fina em vez de lançar mais uma fragrância genérica, e por que a Limppano levou fragrâncias assinadas para a APAS SHOW.

A jornada não começa mais na gôndola

Essa é a mudança que mais exige ajuste de execução: a jornada de decisão do shopper de perfumação em limpeza começa fora da loja.

  • Descoberta, em redes sociais (CleanTok, PerfumeTok), busca ativa por "casa perfumada" ou lançamento de marca conhecida. É aqui que a ressignificação do lar como espaço de bem-estar planta a expectativa antes mesmo da ida ao ponto de venda.
  • Validação visual e sensorial no PDV: a embalagem atua primeiro como "vendedor silencioso" usando comunica luxo acessível ou funcionalidade pura antes de qualquer teste olfativo. Só depois, testeira ou amostra confirma (ou desconfirma) a promessa.
  • Compra, com forte tendência a extensão de marca confiável com novo perfume, em vez de marca desconhecida. Mesmo entre os perfis mais dispostos a pagar mais, dado o gap de renda per capita brasileiro em relação à média mundial.
  • Uso e reforço emocional: a "hora da faxina" perfumada vira o ponto de fixação da memória olfativa, sustentada pela tecnologia de encapsulamento e é aqui que a retenção de 65% do cheiro após um ano se converte em intenção de recompra.
  • Expansão de cesta, presente sobretudo nos perfis 3, 4 e 5: o shopper passa a comprar produtos complementares (aromatizador, vela, odorizador) para sustentar o cheiro por mais tempo, esse é o comportamento de "camadas de perfume".

A implicação prática é direta: como a descoberta acontece fora da loja e a embalagem já pré-qualifica o produto antes do teste olfativo, o investimento prioritário deixa de ser "gôndola informativa", centrada em chamadas (claims) de eficácia, e passa a ser "gôndola experimental e visualmente qualificada", com testeira, design premium visível de longe, e agrupamento por sensação, e não mais por tipo de produto. Isso mesmo, você vai ver uma revolução na hora de organizar a sua gondola, que há muito deixou de ser por marca.

Cinco movimentos de execução para a categoria que validamos aqui na consultoria

  • Sortimento por critério de fragrância, não só por subcategoria: garantir pelo menos uma opção perfumada premium em lava-roupas, multiuso e amaciante, mirando os perfis 3 e 5, sem abandonar o volume que os perfis 1 e 2 sustentam.
  • Auditoria de embalagem como "vendedor silencioso": antes de investir em testeira, confirmar que o design comunica corretamente a que perfil aquele item se dirige; embalagem confusa anula o efeito da fragrância.
  • Trade em ação com ponto de teste olfativo no PDV: testeiras e amostras nos lançamentos de maior valor agregado reduzem a barreira de troca de marca, especialmente para o perfil Autocuidado.
  • Cross-merchandising por sensação: uma ilha de "casa aconchegante" reunindo amaciante, aromatizador e vela captura diretamente o comportamento de "camadas de perfume" do Personalizador Multissensorial, com ticket de cesta mais alto do que a exposição tradicional por categoria.
  • Entrada de preço via formato concentrado ou refil : dado o gasto per capita limitado do brasileiro em limpeza, é o formato que entrega a experiência sensorial sem elevar o ticket médio, sendo o caminho mais realista de conversão do Funcional Consciente para o Autocuidado.
Checklist para aplicação imediata

  • O sortimento tem pelo menos uma opção de entrada perfumada premium por subcategoria (lava-roupas, multiuso, amaciante)?
  • A embalagem dos itens premium comunica "luxo acessível" visualmente, sem depender só do teste olfativo?
  • Existe possibilidade de teste olfativo no PDV para os lançamentos de maior valor agregado?
  • A gôndola está organizada por sensação/ocasião em algum ponto de exposição extra (ilha, ponta), além da lógica tradicional por categoria?
  • Existe leitura de mix entre marcas populares e premium por loja/região, evitando ruptura no tier que sustenta o volume?
  • Antes de comunicar "fixação prolongada" como diferencial, a equipe consegue explicar como isso concilia com a promessa de sustentabilidade da marca?

E aqui fica a recomendação final: executar essa mudança não exige apostar em marca desconhecida nem em ticket alto generalizado, exige reconhecer que o mesmo shopper que hoje compra por hábito é o mesmo que, em outro momento do mês, compra por identidade e bem-estar. Sortimento, embalagem e ponto de teste são as três alavancas que decidem qual desses dois comportamentos vai prevalecer dentro da loja.

Fontes consultadas: Pesquisa interna da Be2win consultoria especializada em JBP, Trade e Shopper; GlobalData (Household Care Market); estudos de tendência de comportamento do consumidor em limpeza doméstica; NielsenIQ/ Mercado&Consumo (tendências de consumo Brasil 2026); ABIPLA/Sindilimpe com dados NielsenIQ (Anuário Abipla 2025); Distribuição/ABAD (gasto per capita em produtos de limpeza no Brasil); SuperVarejo (cobertura APAS SHOW 2026 — Limppano); Acontece Frangipani (parceria Ypê x L'Occitane); Sense of Smell Institute (retenção olfativa e emoção).

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