Por Felipe Queiroz
25 de junho de 2026Mudanças nos hábitos de consumo
Confira o artigo exclusivo de Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (APAS), para a SuperVarejo
Os hábitos dos consumidores estão mudando, e mudando rapidamente. Isso é perceptível, e não é preciso ser especialista no assunto para perceber que o brasileiro tem alterado sua cesta de compras, especialmente nos supermercados. Contudo, o que muitos ainda não compreendem são as razões estruturais dessas mudanças e os rumos para os quais elas têm apontado.
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A coletiva de imprensa da APAS SHOW 2026 mostrou como fatores macrossociais têm produzido transformações estruturais nos hábitos de compra das famílias brasileiras. Amparado, por um lado, em dados longitudinais sobre expectativa de vida, IDH, renda, crédito, tamanho e perfil das famílias e, por outro, em informações extraídas de cupons fiscais de compras em supermercados analisados pela Scanntech, bem como em um estudo sobre os hábitos de consumo e de vida de mais de mil famílias das cinco regiões do país, realizado pela Shopper Experience, o levantamento apresentado na coletiva da APAS SHOW demonstrou não apenas que as pessoas estão vivendo mais, mas também que buscam viver melhor e, como é característico da brasilidade, preocupam-se em preservar os laços e vínculos sociais, cercadas de boas companhias.
Os aspectos relacionados à nossa sociabilidade e cordialidade, tão bem analisados por sociólogos brasileiros, não serão abordados neste artigo. Contudo, não podemos deixar de mencionar que a forma como nos relacionamos socialmente impacta, inclusive, nossas decisões de compra. Esse tema, tão importante quanto pouco explorado, poderá ser objeto de um futuro artigo desta coluna.
Conforme estatísticas oficiais, ao longo das últimas quatro décadas, a expectativa de vida ao nascer aumentou em 31 anos. Os dados mais recentes do IDH brasileiro mostram que o país, apesar de todos os desafios que ainda enfrenta, alcançou o maior indicador de sua série histórica. Isso se reflete, consequentemente, no avanço da expectativa e da qualidade de vida da população. Segundo o IBGE, até 2060, mais de um terço dos brasileiros terá mais de 60 anos.
Com o aumento da expectativa de vida, as pessoas têm buscado viver melhor. A pesquisa apontou que 51% dos entrevistados praticam atividades físicas e que aproximadamente 60% modificaram seus hábitos de consumo nos últimos anos. Os dados da Scanntech corroboram essa tendência: entre o primeiro trimestre de 2022 e o mesmo período de 2026, o consumo de indulgências e de alimentos ultraprocessados recuou 6,2% e 4,0%, respectivamente. Em contrapartida, o consumo de proteínas aumentou de forma significativa. O consumo de frango cresceu 8% no período, enquanto o de carne bovina avançou 18% e o de ovos saltou 41%.
Essa mudança nos hábitos de consumo decorre, sobretudo, da melhoria das condições de vida das famílias nos últimos anos. Quando analisamos o cenário macroeconômico brasileiro em perspectiva de longo prazo, observamos, além dos desafios já conhecidos, alguns indicadores bastante positivos, como: i) crescimento da economia, ainda que moderado; ii) controle da inflação; iii) aumento da renda real da população; e iv) redução da taxa de desemprego. Hoje, mesmo diante de elevações pontuais de preços, como ocorreu recentemente com o café, o país não enfrenta um processo inflacionário crônico, muito menos hiperinflacionário. A combinação desses fatores tem resultado em maior renda disponível e ampliado a possibilidade de mudanças no carrinho de compras das famílias.
Essa nova realidade dos hábitos de consumo tem se refletido, inclusive, em mudanças profundas tanto no formato e na organização das lojas quanto no mix de produtos oferecidos. Os supermercados já não são apenas espaços de compra, mas também ambientes de experimentação, promoção da qualidade de vida e busca por bem-estar. Produtos saudáveis que, há algumas décadas, se resumiam às barrinhas de cereais expostas ao lado dos checkouts, hoje ocupam uma parcela relevante das lojas e respondem por uma fatia crescente do faturamento do setor.
