Newsletter
Receba novidades, direto no seu email.
Assinar
Varejo
...
Por Redação
3 de março de 2026

Amazon Fresh e Go: o que o recuo nos Estados Unidos sinaliza ao varejo brasileiro sobre o futuro das lojas autônomas

Encerramento de unidades reacende debate sobre viabilidade econômica da automação total e reforça avanço de modelos híbridos no Brasil

O encerramento de unidades da Amazon Fresh e Amazon Go nos Estados Unidos recoloca no centro da agenda do varejo global uma pergunta estratégica: a loja 100% autônoma é o destino inevitável do setor ou ainda enfrenta barreiras estruturais de custo, escala e comportamento do consumidor? Para o mercado brasileiro, o movimento funciona menos como um freio na inovação e mais como um alerta sobre maturidade tecnológica, viabilidade econômica e ritmo de adoção.

LEIA TAMBÉM
Inteligência Artificial no varejo alimentar: aplicações e desafios
SuperVarejo lança guia prático sobre IA no Varejo Alimentar

Na avaliação de Eduardo Terra, sócio da BTR-Varese e especialista em varejo, o episódio precisa ser analisado dentro da lógica de experimentação da própria Amazon. Segundo o especialista, o processo faz parte da dinâmica de testes da companhia. "Vejo dois lados neste movimento. A Amazon com todo o seu processo de inovação defende que esse tipo de teste de tecnologia passa por esses ciclos. A empresa investe, testa, mas nem sempre todas as tecnologias vão dar certo. O fato que aconteceu na Amazon foi a ideia de, com visão computacional, que aquele monte de câmeras pudessem cumprir com a tese de uma loja autônoma ou semi-autônoma que era o caso da Amazon Fresh." analisa Terra.

Ao aprofundar a leitura sobre os resultados práticos do modelo, o especialista destaca que o principal obstáculo foi econômico. Segundo o executivo, os custos inviabilizaram a escalabilidade. "O que a gente acompanhou como resultado é que, de fato, o custo, principalmente, foi muito alto. Tanto o custo de hardware, da infraestrutura das câmeras quanto o custo computacional de você processar aquela quantidade de imagens não se mostrou viável para uma escalada. O que não quer dizer que eles não tenham tirado aprendizados disso. No próprio documento oficial que a Amazon soltou, ela entende que parte do que foi usado em todo esse período, algumas coisas em inteligência seguem sendo usadas para olhar a linha de check out, inteligência para self check out, inteligência para as balanças, para inventário, para a omnicanalidade", observa Terra.

Ainda na visão do especialista, o movimento representa um ajuste de timing tecnológico e o modelo totalmente autônomo pode não ser viável no curto prazo, mas permanece no horizonte. "O que fica desse projeto é o ciclo de automação. A gente não está falando ainda de uma loja 100% autônoma no curto prazo, mas de uma loja com bastante automação nessa parte da visão computacional. Talvez daqui a cinco anos com câmeras e com o processamento mais barato a gente volte a falar disso", avalia Terra.

Ajuste estratégico ou recuo?

Na interpretação de Daniel Sant'Anna, fundador da Peggô Market e CEO da INNOVA X, o movimento da Amazon não deve ser encarado como um fracasso. Segundo o executivo, trata-se de um reposicionamento estratégico. "Não interpreto o movimento da Amazon como um fracasso do modelo autônomo, mas como um ajuste estratégico de portfólio. A Amazon é uma empresa de tecnologia que testa modelos em escala global. Quando ela encerra unidades, normalmente não significa que a tecnologia não funciona. Significa que o modelo econômico daquela operação específica não atingiu a margem esperada dentro da estratégia global da companhia. Ela foi a primeira grande loja 100% autônoma, com diversos desafios: o primeiro foi validar a tecnologia criada; o segundo foi entender os custos reais da operação; e o principal que foi entender como seria o comportamento de consumo, que na minha opinião foi a parte mais crítica, pois em um lançamento de uma nova tendência é preciso reeducar o público para ter o comportamento desejado ao novo movimento. Dificilmente esse público vai se adaptar organicamente sem a implantação de uma nova cultura de consumo", afirma Sant'Anna.

Ao projetar o destino da tecnologia Just Walk Out, o executivo sustenta que a discussão deixou de ser sobre viabilidade e passou a ser sobre aplicação estratégica. De acordo com o fundador da Peggô Market, o desafio é operacional e cultural. "A tecnologia já não é apenas uma tendência, hoje virou realidade e cada dia que passa fica mais acessível. O maior desafio que algumas empresas enfrentam é como utilizar a tecnologia no modelo eficaz. Hoje, no Brasil, esse tipo de tecnologia funciona em todos os modelos de varejo, a diferença não é onde a tecnologia se encaixa, mas como estamos utilizando e preparando o público. Saímos de uma operação que dependia 100% dos seus colaboradores para uma 100% autônoma e isso causou um choque no consumidor. Mas quando você entende que existe um meio termo em uma operação híbrida, onde você pode usar a tecnologia atrelada a mão de obra humanizada, fica mais fácil quebrar a barreira e educar esse novo comportamento de consumo", explica Sant'Anna.

O executivo também reforça que o movimento da Amazon não altera a percepção de risco no Brasil. Segundo o fundador da rede de lojas autônomas, o mercado já absorveu o aprendizado. "Quando a Amazon lançou a tecnologia ela abriu as portas para muitas oportunidades, e o varejo foi se adaptando e entendeu que atrelando a tecnologia a um modelo híbrido isso funciona muito bem", aponta Sant'Anna.

O modelo brasileiro e a lógica híbrida

Ao analisar o cenário nacional, Sant'Anna destaca que a adoção depende do formato operacional e, para o executivo, o Brasil já conta com fornecedores e casos consolidados. "O Brasil hoje já possui diversas empresas que ofertam essa tecnologia a um preço bem acessível, uma delas a VM Tecnologia que recentemente foi absorvida pela gigante de mercado Nayax. Se tratando de custos operacionais quando falamos em mercados dentro de condomínios no Brasil, por exemplo, isso cresceu muito rápido. Com isso veio a consolidação e o consumidor nos dias de hoje já se adaptaram ao novo formato de consumo e transformaram em rotina. Quando falamos em operações tradicionais de rua, enfrentamos algumas dificuldades em custos operacionais e também um melhor controle contra furtos", observa Sant'Anna.

Na visão de Eduardo Terra, o fator custo continua sendo o principal limitador para uma expansão acelerada de lojas totalmente autônomas. Segundo o especialista, a tecnologia é funcional, mas financeiramente restritiva. "Ficam os aprendizados. A gente não vai ver lojas autônomas explodindo, principalmente pelo custo. A tecnologia funciona, mas ela é muito cara. Então, acho que essa é a grande conclusão que a gente tem", avalia.

Ao projetar os próximos anos, Sant'Anna aponta para a consolidação de dois formatos coexistentes no Brasil e o foco estará menos na eliminação de pessoas e mais na redução de fricções. "Na velocidade das coisas hoje, é muito difícil projetar 5 anos, mas falando de futuro, teremos 2 modelos: Micro lojas 100% autônomas em condomínios, empresas e hospitais. E as lojas híbridas com checkout tradicional, autoatendimento e app. O futuro não é eliminar pessoas, é eliminar fricção. O consumidor quer rapidez, segurança, disponibilidade 24h e experiência fluida. A tecnologia é meio e não é fim. O movimento da Amazon reforça que a tecnologia precisa andar junto com a viabilidade econômica. O modelo autônomo não é uma tendência passageira, ele é parte da evolução do varejo. No Brasil, formatos de proximidade e conveniência, como o da Peggô Market, apresentam uma equação mais sustentável e alinhada ao comportamento do consumidor. O futuro será menos sobre eliminar caixas e mais sobre reduzir fricções e usar inteligência para melhorar margens e experiência." conclui Sant'Anna.

Deixe seu comentário