Por Redação
27 de julho de 2026Mais frescor, menos perdas: como as fazendas verticais conquistam o varejo
Empresas brasileiras investem em agricultura indoor para oferecer produtos padronizados, reduzir desperdícios e aproximar a produção dos centros consumidores
Por muito tempo, a produção de frutas, legumes e verduras esteve sujeita às variações climáticas, à sazonalidade e aos desafios logísticos. Agora, um modelo baseado em tecnologia começa a mudar esse cenário. As fazendas verticais, que cultivam alimentos em ambientes totalmente controlados, avançam no Brasil e despertam o interesse do varejo supermercadista ao oferecer produtos mais frescos, padronizados e disponíveis durante todo o ano.
Embora ainda representem uma parcela pequena da produção nacional, empresas como Pink Farms, Fazenda Cubo e Bioma mostram que a agricultura indoor já deixou de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornar uma alternativa capaz de reduzir perdas, aumentar a previsibilidade do abastecimento e agregar valor ao setor de frutas, legumes e verduras (FLV).
O princípio é semelhante em todas elas: iluminação por LED, irrigação automatizada, controle de temperatura, umidade, ventilação e nutrientes criam condições ideais para o desenvolvimento das plantas durante os 365 dias do ano. Sem depender de chuva, seca ou geadas, a produção torna-se mais estável e previsível. Atualmente, a Pink Farms tem entre seus clientes Carrefour, Pão de Açucar, Mambo, além de mercados de bairro, como Hortisabor, Quitanda, entre outros.
Para Rafael Delalibera, cofundador da Pink Farms, esse é justamente um dos maiores atrativos para o varejo. "Acreditamos que o varejo vê potencial porque aqui não dependemos de fatores climáticos externos para ter uma produção de qualidade, e além disso, conseguimos produzir itens que a agricultura convencional encontra mais dificuldade para cultivar, como folhas baby e microverdes”, explica.
O ambiente controlado também garante maior padronização dos alimentos e praticamente elimina a necessidade de defensivos agrícolas., segundo Delalibera. "Nossos produtos apresentam maior frescor, durabilidade e são produzidos sem o uso de agrotóxicos”.
Essas características impactam diretamente a operação dos supermercados. Produtos com vida útil mais longa permanecem mais tempo nas gôndolas, reduzem descartes e contribuem para minimizar perdas em uma das categorias mais sensíveis da loja.
Além da qualidade, a Pink Farms observa mudanças no comportamento do consumidor, cada vez mais interessado em alimentos produzidos de forma sustentável, rastreável e com qualidade constante. Embora reconheça que o custo de produção ainda seja superior ao da agricultura convencional, a empresa acredita que o avanço tecnológico reduzirá gradualmente despesas com energia, mão de obra especializada e equipamentos, ampliando a competitividade do modelo.
Outra aposta da empresa é a expansão do portfólio. Hoje concentrada em folhas, ervas e microverdes, a expectativa é que, no futuro, as fazendas verticais também passem a produzir tomate-cereja, morangos e outras culturas de maior valor agregado.
A estratégia da Fazenda Cubo segue caminho semelhante, mas com foco em aproximar ainda mais a produção dos centros consumidores. A empresa mantém uma fazenda urbana em Pinheiros, na capital paulista, além de uma estufa climatizada de cerca de 4 mil metros quadrados em Franco da Rocha (SP), estrutura responsável por abastecer supermercados, restaurantes e outros clientes.
Paulo Bressiani, fundador da empresa, afirma que produzir perto do consumidor reduz o tempo entre a colheita e a exposição nas gôndolas, preservando qualidade e diminuindo perdas logísticas. "As fazendas verticais deixaram de ser apenas uma inovação tecnológica para se tornar uma alternativa real de produção próxima ao consumidor”.
O executivo ressalta que a previsibilidade é um dos maiores diferenciais da agricultura indoor. "Conseguimos produzir alimentos com qualidade constante, independentemente de chuva, seca ou temperatura. Isso traz estabilidade para toda a cadeia de abastecimento”, pontua, afirmando que que o consumidor também começa a reconhecer o valor agregado desses alimentos.
De fato, as pessoas valorizam cada vez mais alimentos produzidos com rastreabilidade, qualidade e segurança. Quando conhecem o processo, passam a entender o valor desse tipo de produção. Além, disso, segundo Bressiani, a experiência de ver a produção acontecendo também fortalece a relação com a marca. "As pessoas param para observar a fazenda funcionando, e isso gera confiança, reforça a percepção de frescor e cria uma conexão diferente com o produto”.
De acordo com a empresa, o retorno dos investimentos em projetos de agricultura vertical varia entre três e cinco anos, dependendo do porte da operação, da escala produtiva e do nível de automação adotado.
Agricultura dentro da loja
Se a Pink Farms e a Fazenda Cubo apostam na produção próxima dos centros consumidores, a Bioma foi além e levou a fazenda para dentro do supermercado. O modelo prevê a instalação de fazendas verticais compactas no ponto de venda, permitindo que o consumidor acompanhe o cultivo e adquira hortaliças colhidas poucos minutos antes da compra.
Para Bruno Teles, fundador da empresa, a proposta transforma a forma de comercializar alimentos frescos. "Queremos que o cliente compre um alimento literalmente vivo, que a planta permaneça crescendo até o momento da colheita, preservando sabor, textura, nutrientes e aumentando significativamente sua vida útil”, declara.
O sistema utiliza cultivo hidropônico em ambiente totalmente controlado, com iluminação por LED, irrigação automatizada e monitoramento permanente de temperatura, umidade, ventilação e nutrientes. Esse modelo utiliza até 95% menos água do que a agricultura convencional e praticamente elimina o uso de defensivos agrícolas.
Além dos benefícios ambientais, a proximidade entre produção e consumo reduz etapas logísticas, preserva o frescor dos alimentos e diminui perdas ao longo da cadeia. "Quando eliminamos parte da cadeia logística, também reduzimos desperdícios e aumentamos a previsibilidade de abastecimento", afirma Teles.
A Bioma aposta ainda na experiência de compra como um diferencial competitivo. A presença da fazenda dentro da loja desperta curiosidade, reforça atributos como transparência e sustentabilidade e aproxima o consumidor da origem dos alimentos. "As pessoas conseguem acompanhar todo o processo produtivo. Isso gera confiança e fortalece a percepção de qualidade”, enaltece Teles.
Hoje a Bioma atende supermercados, com mais de 60 PDVs em Florianópolis (SC) e Gramado (RS), além de atender também Food Service, por meio de sua produção central.
FLV mais estratégico
Embora adotem modelos diferentes, Pink Farms, Fazenda Cubo e Bioma convergem em um mesmo ponto: as fazendas verticais não pretendem substituir a agricultura convencional, mas complementar a oferta de alimentos, especialmente em categorias de maior valor agregado.
Entre os principais benefícios para o varejo estão a redução da dependência das condições climáticas, maior regularidade no abastecimento, diminuição das perdas logísticas, produtos mais padronizados e aumento da vida útil das hortaliças.
Outro aspecto relevante é a sustentabilidade. Além da economia de água e da redução do uso de defensivos, a produção próxima aos centros consumidores reduz a necessidade de transporte de longa distância, diminuindo emissões de carbono e fortalecendo práticas alinhadas às estratégias ESG adotadas por diversas redes supermercadistas.
Ainda existem desafios. O investimento inicial continua elevado, principalmente devido aos sistemas de iluminação, climatização e automação, e o consumo de energia elétrica permanece como um dos principais componentes do custo operacional. Atualmente, o modelo concentra-se em folhas, ervas aromáticas e microverdes, culturas que apresentam maior viabilidade econômica para o cultivo indoor. Mesmo assim, as empresas acreditam que a evolução tecnológica permitirá reduzir custos e ampliar o número de espécies cultivadas nos próximos anos.
Mais do que uma tendência, as fazendas verticais começam a ocupar espaço na estratégia dos supermercados. Ao combinar tecnologia, previsibilidade, sustentabilidade e produtos de maior valor agregado, elas oferecem ao varejo uma alternativa para enfrentar um dos maiores desafios da operação: manter o setor de frutas, legumes e verduras abastecido com qualidade, regularidade e menor índice de perdas.
Para as redes supermercadistas, isso significa transformar o FLV em uma categoria cada vez mais estratégica, capaz de unir eficiência operacional, diferenciação comercial e uma experiência de compra que atende às novas exigências dos consumidores.