Por Redação
3 de julho de 2026Made in Italy avança no varejo brasileiro e mira espaço definitivo nas gôndolas após a APAS SHOW 2026
Em entrevista exclusiva para a SuperVarejo, Ronaldo Padovani, analista de negócios sênior da Agência ICE, explica como a Itália pretende transformar o interesse gerado na APAS SHOW 2026 em novos negócios para o varejo brasileiro
O mercado brasileiro tem ampliado o espaço dedicado aos produtos importados de maior valor agregado, e os alimentos italianos seguem entre os protagonistas desse movimento. Após a forte presença da Itália na APAS SHOW 2026, reunindo 31 fabricantes de alimentos e bebidas e atraindo cerca de dois mil visitantes, o desafio agora é transformar o interesse despertado durante a feira em presença permanente nas gôndolas dos supermercados brasileiros. A estratégia vai além da ampliação das exportações e envolve parcerias com o varejo, desenvolvimento de categorias, capacitação de equipes e iniciativas voltadas à valorização da autenticidade dos produtos Made in Italy.
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Segundo a Agência ICE, o Brasil consolidou-se como um dos mercados estratégicos para a indústria agroalimentar italiana. O crescimento das importações nos últimos anos tem sido impulsionado por categorias tradicionais, como massas, azeites, atomatados, queijos, embutidos e produtos de padaria, mas também por segmentos que ganham espaço entre consumidores em busca de experiências gastronômicas diferenciadas, como frutas italianas, chocolates premium e produtos à base de tartufo. Ao mesmo tempo, a entidade trabalha para reduzir barreiras comerciais e ampliar o conhecimento do consumidor brasileiro sobre a origem, as denominações certificadas e os diferenciais dos alimentos italianos.
Em entrevista exclusiva ao SuperVarejo, Ronaldo Padovani, Analista de Negócios Sênior da Agência ICE, detalha quais categorias apresentam maior potencial de crescimento no varejo nacional, comenta os principais destaques da APAS SHOW 2026, analisa os desafios para ampliar a distribuição dos produtos italianos no Brasil e explica como a Agência ICE pretende fortalecer a parceria com supermercados e plataformas de e-commerce para consolidar o Made in Italy como uma categoria cada vez mais relevante nas gôndolas brasileiras.
SuperVarejo: O crescimento das importações brasileiras de alimentos e bebidas italianos tem sido consistente nos últimos anos. Quais categorias do portfólio Made in Italy apresentam hoje o maior potencial de expansão dentro dos supermercados brasileiros e por quê?
Ronaldo Padovani: As importações brasileiras de alimentos e bebidas italianos vêm registrando trajetória consistente de crescimento, com duas categorias se destacando como as de maior potencial de expansão no varejo nacional. Massas secas, recheadas e produtos de padaria consolidaram-se como pilar maduro do portfólio, saltando de USD 50,3 milhões em 2021 para USD 85,4 milhões em 2025 (+69,7%), com avanço adicional de 5,1% nos cinco primeiros meses de 2026 — impulsionados pela valorização de atributos autênticos como trigo duro, além do crescimento dos segmentos premium recheados e dos produtos sazonais como panettone e pandoro.
Já as frutas italianas representam o caso mais expressivo de expansão, com importações saindo de USD 24,5 milhões em 2021 para USD 71,6 milhões em 2025 (+192%) e incremento de 30% em 2026, tendo a maçã como protagonista absoluta dessa ascensão. Ambas as categorias se beneficiam do fortalecimento do consumidor premium brasileiro, da expansão de redes varejistas de alto padrão, da complementaridade sazonal entre os hemisférios e do trabalho institucional de promoção comercial, configurando um cenário estratégico altamente favorável para a continuidade do avanço do Made in Italy nas gôndolas brasileiras nos próximos anos.
Esse movimento de crescimento, contudo, não se restringe às massas, produtos de padaria e frutas: verifica-se igualmente em diversas outras categorias do portfólio italiano, como azeites de oliva extravirgens, atomatados e demais conservas vegetais, arrozes especiais, queijos típicos, presuntos e embutidos, entre outras. Esse avanço transversal consolida cada vez mais a presença do Made in Italy na mesa do consumidor brasileiro, que, por razões históricas ligadas à intensa imigração italiana e à profunda influência cultural exercida ao longo de mais de um século, mantém vínculo afetivo e gastronômico singular com a tradição culinária da Itália — fator que potencializa a receptividade do varejo e sustenta perspectivas promissoras de longo prazo para o conjunto das categorias italianas no Brasil.
SV: Entre os produtos apresentados na APAS SHOW 2026, quais foram os que despertaram maior interesse de supermercadistas e importadores brasileiros, e quais tendências de consumo explicam essa demanda?
RP: A APAS SHOW 2026 reafirmou-se como vitrine estratégica para o portfólio italiano no Brasil, com o maior interesse de supermercadistas e importadores concentrado, naturalmente, nas categorias historicamente em expansão no mercado brasileiro: massas secas e recheadas, produtos de padaria, frutas frescas, azeites extravirgens, atomatados e conservas vegetais, arrozes especiais, queijos típicos e embutidos tradicionais. Esse interesse se manifestou em duas dinâmicas complementares — para os operadores que já trabalham com essas categorias, a feira representou oportunidade de estreitar laços com fornecedores e conhecer novos produtores, enquanto para aqueles que ainda não possuem o Made in Italy em seus portfólios configurou-se como porta de entrada estratégica, permitindo provar a qualidade da produção italiana e iniciar negociações estruturadas.
Além dessas categorias consolidadas, dois segmentos emergentes despertaram atenção particularmente forte: as salsas e cremes à base de tartufo e os chocolates italianos. Os produtos com tartufo refletem o movimento de premiumização das gôndolas brasileiras e a sofisticação crescente do paladar do consumidor de alta renda, migrando do canal HORECA para as seções gourmet do varejo premium. Já os chocolates italianos posicionam-se com forte potencial para ocupar o espaço premium da confeitaria, atualmente dominado por marcas suíças, belgas e francesas, beneficiando-se da reputação internacional dos fabricantes italianos em pralinés, gianduja e especialidades artesanais.
O conjunto desses movimentos reflete tendências estruturais profundas no consumo brasileiro: a busca por autenticidade e origem geográfica certificada, a premiumização seletiva da cesta de compras, a sofisticação do paladar e a familiaridade crescente com a gastronomia italiana autêntica, somadas à segmentação do varejo nacional, que cada vez mais cria espaços dedicados a produtos importados e gourmet.
SV: Quais são os principais desafios para transformar o interesse gerado durante a feira em presença efetiva nas gôndolas dos supermercados brasileiros, especialmente em aspectos como logística, distribuição, tributação e educação do consumidor?
RP: A transformação do interesse comercial gerado em eventos como a APAS SHOW em presença efetiva nas gôndolas dos supermercados brasileiros envolve desafios de intensidades distintas. O sistema logístico brasileiro é razoavelmente desenvolvido, particularmente nos grandes centros econômicos, configurando-se como barreira relativamente pequena — embora a distribuição em um país de dimensões continentais permaneça sempre um desafio operacional. Já a tributação representa hoje fator de peso significativo, mas tende a perder força progressivamente com a entrada em vigor do Acordo UE-Mercosul, tornando-se ao longo dos próximos anos um elemento secundário na equação competitiva dos produtos italianos no Brasil.
Mais relevantes atualmente são as barreiras documentais e regulatórias, particularmente sensíveis para as pequenas e médias empresas italianas — que constituem a grande maioria do tecido produtivo agroalimentar da Itália e contam, em geral, com quadros reduzidos de colaboradores, o que torna desproporcional o ônus de gerenciar processos burocráticos complexos em mercados distantes. Também nesse aspecto, o Acordo UE-Mercosul deve desempenhar papel mitigador relevante ao longo dos próximos anos, ao prever simplificações e harmonizações de procedimentos que reduzirão significativamente os custos de entrada para produtores italianos de menor porte.
De todos os obstáculos analisados, talvez o mais difícil de equacionar, ou que deve tomar mais tempo, é a formação do consumidor brasileiro, que precisa compreender as diferenças autênticas entre os produtos italianos com denominação de origem (DOP, IGP, PAT) e seus equivalentes produzidos no Brasil. Não se trata de estabelecer hierarquias de qualidade — não é questão de um produto ser melhor ou pior que outro —, mas de reconhecer que são produtos diferentes, com perfis sensoriais, processos produtivos e tradições territoriais distintos, cujas particularidades devem ser compreendidas e valorizadas para que o consumidor perceba o valor agregado da escolha.
SV: O consumidor brasileiro está cada vez mais atento à origem, qualidade e autenticidade dos alimentos. Como a Agência ICE e a Fiere di Parma trabalham para fortalecer o valor percebido dos produtos italianos e diferenciá-los em um mercado cada vez mais competitivo?
RP: Diante de um consumidor brasileiro cada vez mais atento à origem, qualidade e autenticidade dos alimentos, a Agência ICE-Italian Trade Agency e a Fiere di Parma desenvolvem uma estratégia coordenada e multifacetada para fortalecer o valor percebido dos produtos italianos e diferenciá-los em um mercado crescentemente competitivo. Uma das frentes mais estratégicas consiste em levar cada vez mais compradores brasileiros para visitar as feiras setoriais e os distritos industriais italianos, proporcionando imersão direta no território produtivo da Itália. Esse contato permite que supermercadistas, importadores e buyers brasileiros vivenciem em primeira mão a complexidade e a tradição da cadeia agroalimentar italiana, criando convicção comercial autêntica e fortalecendo relações duradouras com fornecedores.
Em paralelo, a estratégia contempla forte presença em feiras e eventos no Brasil, como a APAS SHOW e demais eventos setoriais relevantes, garantindo que o Made in Italy esteja diretamente acessível ao ecossistema varejista nacional. Essa atuação institucional reduz significativamente as barreiras de entrada para as pequenas e médias empresas italianas e multiplica oportunidades de negócio, garantindo visibilidade contínua e estruturada ao portfólio italiano no mercado brasileiro.
O terceiro pilar estratégico é a ampliação contínua da rede de acordos com grandes redes de supermercados e plataformas de e-commerce brasileiras, configurando-se como parcerias estruturadas que combinam trade marketing, capacitação de equipes de vendas, sinalização diferenciada, degustações e ações de educação do consumidor final. A Agência ICE também convida supermercadistas e operadores de e-commerce brasileiros a desenvolverem ações personalizadas para ampliar o consumo de produtos Made in Italy, consolidando uma estratégia colaborativa e de longo prazo.
SV: Além da exportação de produtos, existe uma estratégia de longo prazo para ampliar a colaboração entre a indústria italiana e o varejo alimentar brasileiro, seja por meio de ações promocionais, desenvolvimento de categorias, capacitação ou experiências gastronômicas dentro das lojas?
RP: A relação entre a indústria agroalimentar italiana e o varejo brasileiro transcende a simples transação de exportação e importação, configurando-se como uma estratégia de longo prazo estruturada em torno de um programa específico da Agência ICE de patrocínio a ações promocionais no varejo brasileiro. Esse programa é desenhado com três objetivos complementares: educar o consumidor sobre os atributos diferenciados dos produtos italianos, oferecer oportunidades concretas de descoberta de novos produtos e de redescoberta de itens já presentes em seu cotidiano, e colaborar diretamente com o varejista para que venda mais e venda com mais consciência — em uma lógica fundamentalmente cooperativa, e não unilateral.
Essa estratégia se materializa em ações promocionais sazonais, desenvolvimento de categorias, capacitação das equipes de vendas, experiências gastronômicas dentro das lojas, degustações, eventos com chefs, ativações temáticas e iniciativas voltadas ao ambiente digital e às plataformas de e-commerce.
O elemento essencial dessa visão de longo prazo é a lógica de ganho mútuo: a Agência ICE atua como parceira efetiva do varejo brasileiro, comprometida com o sucesso comercial do supermercadista e do operador de e-commerce que abrem espaço para o Made in Italy em seu mix. Não se trata de uma ofensiva promocional pontual, mas de um esforço sustentado de construção de cultura, conhecimento e valor agregado em torno dos produtos italianos no Brasil, transformando o crescente interesse do consumidor brasileiro pela autenticidade gastronômica italiana em presença efetiva, consistente e duradoura nas gôndolas dos supermercados e nas plataformas digitais do país.