Por Redação
5 de junho de 2026Recommerce alimentar avança no varejo e transforma desperdício em oportunidade de negócio
Redes e plataformas apostam em tecnologia, gestão preditiva e mudança cultural do consumidor para ampliar a comercialização de produtos próximos ao vencimento e reduzir perdas operacionais
O conceito de recommerce, já consolidado em segmentos como moda e eletrônicos, começa a ganhar força também no varejo alimentar. A combinação entre pressão por eficiência operacional, necessidade de redução de perdas e um consumidor mais atento ao desperdício vem acelerando estratégias ligadas à chamada “vida útil estendida” dos alimentos. Nesse movimento, supermercados, plataformas digitais e operações de quick commerce passaram a integrar tecnologias de previsão de demanda, inteligência logística e precificação dinâmica para ampliar a comercialização de produtos próximos ao vencimento, fora do padrão estético ou excedentes de estoque, sem comprometer segurança alimentar e experiência de compra.
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Segundo Lucas Infante, CEO da Food To Save, a mudança no comportamento do consumidor já é perceptível dentro da operação das empresas. “Enxergamos essa mudança como um movimento sem volta. O consumidor está cada vez mais consciente sobre desperdício e mais aberto a repensar antigos padrões de consumo, principalmente quando percebe que qualidade e segurança alimentar não estão necessariamente ligadas à estética perfeita ou a uma validade longa. O que antes era visto com preconceito hoje começa a ser entendido como uma escolha inteligente, econômica e sustentável. Na Food To Save, percebemos que o consumidor quer consumir melhor e economizar, ao mesmo tempo em que gera impacto positivo no meio ambiente”, afirma.
Na visão de Maria Victoria Ferner, diretora Comercial da Daki, a redução de desperdício deixou de ser apenas uma pauta ambiental para se tornar parte estrutural da eficiência operacional no varejo alimentar digital. “A redução de desperdício faz parte da eficiência operacional da Daki desde a origem do negócio. Como operamos com dark stores estrategicamente posicionadas, tecnologia proprietária e gestão integrada de estoque, conseguimos ter uma leitura muito precisa sobre giro, demanda e comportamento de consumo em cada região”, destaca Ferner.
A executiva explica que a companhia passou a integrar iniciativas ligadas à vida útil estendida dentro da própria jornada operacional do aplicativo. “A Daki também conta com um corredor dedicado a produtos próximos ao vencimento dentro do app. Nossas políticas para esses itens são até mais conservadoras do que a média do mercado: disponibilizamos os produtos com antecedência maior em relação à data de vencimento justamente para ampliar a janela de venda e reduzir desperdício operacional. Dentro dessa lógica, iniciativas ligadas à ‘vida útil estendida’ deixam de ser apenas uma ação promocional e passam a fazer parte de uma operação mais inteligente, eficiente e sustentável”, diz Ferner.
Tecnologia e previsibilidade ganham protagonismo
De acordo com Lucas Infante, a tecnologia passou a ser decisiva para que o varejo consiga trabalhar com produtos com menor shelf life sem elevar os riscos operacionais. “O ponto central é inteligência operacional. Hoje, a tecnologia permite que varejistas tenham uma gestão muito mais precisa de estoque, validade e comportamento de consumo. Ferramentas de monitoramento em tempo real, previsibilidade de demanda e precificação dinâmica ajudam a direcionar produtos que ainda estão próprios para consumo antes que virem desperdício”, explica o CEO da Food To Save.
O executivo ainda ressalta que a transparência na comunicação também influencia diretamente na percepção de valor do consumidor. “Além disso, a comunicação transparente é essencial. Quando o consumidor entende por que aquele produto está sendo ofertado com desconto, seja por validade próxima, excesso de estoque ou padrão estético, a percepção muda completamente. A segurança alimentar continua sendo inegociável; o recommerce não significa vender produtos inadequados, mas sim criar eficiência para evitar desperdício de itens perfeitamente consumíveis”, observa Infante.
Para Maria Victoria Ferner, operações de quick commerce dependem de leitura de dados em tempo real para equilibrar disponibilidade, giro e redução de perdas. “A tecnologia é um elemento central para esse processo. A Daki utiliza modelos de previsão de demanda baseados em IA que analisam padrões de consumo, sazonalidade, comportamento regional e performance de categorias em tempo real”, afirma Ferner.
A executiva destaca que a integração operacional tem permitido acelerar decisões comerciais antes que os produtos se transformem em perda. “A integração entre dados de consumo, gestão de estoque e abastecimento permite identificar rapidamente produtos com desaceleração de giro ou proximidade de vencimento, possibilitando ações comerciais e operacionais de forma muito mais ágil. Como o quick commerce trabalha com alta frequência de compra e uma operação extremamente dinâmica, essa capacidade de leitura em tempo real é essencial para equilibrar disponibilidade, eficiência logística e redução de perdas”, analisa Ferner.
Consumidor mais racional impulsiona o movimento
Para Lucas Infante, categorias perecíveis lideram atualmente o potencial de expansão do recommerce alimentar no varejo supermercadista. “Hoje, vemos um potencial enorme em categorias como hortifruti, panificação, laticínios, alimentos refrigerados e produtos industrializados próximos ao vencimento. São segmentos que tradicionalmente sofrem muito com perdas operacionais”, aponta.
O executivo afirma que o consumidor brasileiro demonstra uma aceitação crescente de produtos considerados “imperfeitos” ou com validade reduzida. “Existe uma conscientização crescente sobre desperdício e consumo inteligente, impulsionada pela sustentabilidade e economia. O consumidor começa a enxergar valor nesses alimentos ‘imperfeitos’, entendendo que uma fruta fora do padrão estético ou um produto com validade mais curta não significa menor qualidade ou insegurança alimentar”, avalia Infante.
Na visão de Maria Victoria Ferner, o ambiente digital acelerou esse comportamento de compra mais racional e planejado. “O consumidor digital está cada vez mais racional e atento à relação entre conveniência, preço e consumo consciente. Existe, sim, uma abertura crescente para produtos com descontos relacionados à vida útil, principalmente quando essa comunicação é feita de forma transparente e dentro de uma experiência de compra confiável”, destaca Ferner.
A executiva afirma que os perecíveis concentram a maior parte da demanda por produtos próximos ao vencimento na plataforma. “Hoje, itens de perecíveis e Fresh/Hortifrúti representam cerca de 78% do volume de produtos próximos ao vencimento comercializados na plataforma, principalmente laticínios, padaria, frios, ovos e hortifrúti, categorias naturalmente mais sensíveis ao shelf life curto”, explica Ferner.
Sustentabilidade e rentabilidade passam a caminhar juntas
Segundo Lucas Infante, o recommerce alimentar deixou de ser apenas uma solução ambiental e passou a gerar ganhos financeiros diretos para o varejo. “Primeiro, existe uma redução direta de perdas e desperdício, que impacta imediatamente a margem operacional. Além disso, o recommerce alimentar transforma um passivo, produtos que potencialmente seriam descartados, em oportunidade de receita incremental”, afirma Infante.
O executivo destaca que a tendência é de integração cada vez maior dessas estratégias dentro da operação supermercadista. “Para os próximos anos, acreditamos que o recommerce alimentar vai deixar de ser algo pontual para se tornar parte estrutural da operação do varejo. A tendência é que os supermercados integrem soluções de gestão de excedentes de forma cada vez mais automatizada, conectando sustentabilidade, eficiência operacional e novas fontes de receita”, salienta Infante.
Na avaliação de Maria Victoria Ferner, o avanço da inteligência artificial e da análise preditiva deve ampliar ainda mais esse movimento nos próximos anos. “No futuro, a tendência é que o varejo trabalhe de maneira ainda mais personalizada e dinâmica, ajustando oferta, estoque e estratégia comercial quase em tempo real. Isso aumenta a eficiência, reduz o desperdício e melhora a experiência do consumidor”, afirma Ferner.
A executiva conclui que a combinação entre tecnologia, inteligência logística e recorrência de compra deve transformar o recommerce alimentar em diferencial competitivo dentro do setor supermercadista. “A combinação entre inteligência logística, tecnologia proprietária e leitura de comportamento tende a ser um diferencial competitivo cada vez mais importante para o setor”, finaliza Ferner.